. Folia de Reis de Águas do Miranda mantém viva há mais de meio século a fé e a ancestralidade

Atualidade Eventos Culturais

Há mais de 50 anos, quando os primeiros cantos ecoaram pelas margens do Rio Miranda, a Folia de Reis da Comunidade Quilombola Águas do Miranda deixou de ser apenas uma celebração religiosa e passou a se afirmar como herança viva, memória em movimento e um dos símbolos mais potentes da cultura popular negra em Mato Grosso do Sul.

No sábado (10) e no domingo (11), a tradição se renova com a realização da 39ª Festa da Folia de Reis, no distrito de Águas do Miranda, em Bonito, reafirmando a força de uma manifestação que atravessa gerações.

Reconhecida como a maior festa cultural do distrito e a primeira grande celebração do calendário anual do município, a Folia de Reis reúne fé, devoção, música, partilha e encontro comunitário

Neste ciclo, a festa passa a contar com o apoio do Grupo Trabalho e Estudos Zumbi (Grupo TEZ), por meio do Projeto Festividades Religiosas: Saberes e Ancestralidade, com investimento da Política Nacional Aldir Blanc, do Governo Federal, via Ministério da Cultura, e execução do Governo do Estado, por meio da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul.

O projeto contribui com visibilidade, ações formativas e fortalecimento cultural, valorizando a cultura negra e quilombola dentro do próprio território onde ela resiste e floresce, e seguirá apoiando outras festas religiosas de comunidades negras no estado.

Para Kely Aparecida da Silva, cozinheira e uma das organizadoras da festa, a Folia de Reis é um momento em que a comunidade se reconhece como corpo coletivo. Segundo ela, a festa reforça a união, permite sentir a fé das pessoas e cria um diálogo entre quem acredita, quem respeita e quem compreende a importância de expandir a crença.

Kely explica que cada etapa da celebração carrega um sentido profundo, do terço ao jantar coletivo, marcando o encerramento de uma caminhada feita dia e noite pelas casas que receberam a bandeira. Para ela, é o momento de comemorar a construção coletiva da festa.

. A organizadora também destaca o papel das lideranças comunitárias, que transformam fé em ação coletiva e conseguem reunir a comunidade em torno de uma celebração familiar, de convivência, diversão e pertencimento.

A história da Folia de Reis em Águas do Miranda também é marcada pela memória familiar. A tradição chegou à comunidade pelas mãos de Amarílio Modesto da Silva, avô de Kely, que trouxe a folia da Bahia para Mato Grosso do Sul.

A bandeira passou por Nioaque, retornou para ele e, então, a festa chegou a Águas do Miranda, consolidando uma linha de transmissão cultural que permanece viva até hoje como expressão de ancestralidade.

Para Bartolina Ramalho Catanante, a Professora Bartô, presidenta do Grupo TEZ, apoiar a Folia de Reis é também um gesto de reencontro com a memória coletiva das comunidades negras, quilombolas e rurais.

Segundo ela, a Folia sempre foi espaço de integração, cantoria, visita, partilha e participação comunitária, funcionando como elo entre gerações e como elemento estruturante da vida social no interior.

A aproximação entre o TEZ e a Comunidade Quilombola Águas do Miranda, segundo Bartô, nasce da afinidade entre quem preserva a cultura no território e quem atua há décadas na defesa da identidade negra.

Além do apoio direto às festividades, o projeto prevê ações formativas, como oficinas e rodas de conversa, que estimulam a reflexão sobre o sentido da manifestação cultural e sua transmissão para as novas gerações.

Para Bartô, refletir sobre a cultura é tão importante quanto celebrá-la, especialmente para que jovens compreendam, valorizem e deem continuidade às tradições herdadas.

Preservar a Folia de Reis, segundo ela, é também um ato político e educativo, que combate o racismo, reafirma a identidade cultural negra e fortalece a memória histórica como parte constitutiva da cultura brasileira e sul-mato-grossense.

A festa, assim, se mantém como espaço de fé, celebração, convivência, educação cultural e afirmação identitária, conectando passado, presente e futuro dentro do território quilombola.

Ao manter viva a Folia de Reis de Águas do Miranda, a comunidade reafirma que tradição não é passado imóvel, mas prática viva que se renova a cada geração e segue estruturando laços, saberes e pertencimento coletivo.

A 39ª edição da festa consolida esse movimento como uma das expressões mais duradouras e significativas da cultura popular negra em Mato Grosso do Sul.

Loading

Compartilhe nosso artigo

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *