Marcelo Kricheldorf
Lançado em 1975, no epicentro de uma América abalada pelo escândalo de Watergate e pelo fim da Guerra do Vietnã, Três Dias do Condor transcende o gênero de espionagem para se tornar um estudo definitivo sobre a vulnerabilidade do indivíduo perante o Estado. Dirigido por Sidney Pollack, o filme não apenas redefine o herói de ação — trocando a força bruta por uma trama que envolve raciocínio logico — mas estabelece as bases para o “thriller de paranoia” que dominaria o cinema americano daquela década.
A trama acompanha Joe Turner (Robert Redford), codinome “Condor”, um analista da CIA cujo trabalho consiste em ler livros, revistas e jornais do mundo todo em busca de padrões e códigos ocultos. O conflito irrompe quando, ao retornar de um almoço banal, Turner encontra todos os seus colegas de seção brutalmente assassinados. De um momento para o outro, o acadêmico de escritório é forçado a abandonar a teoria pela prática da sobrevivência. A narrativa se desenrola em uma corrida de setenta e duas horas, onde Turner tenta decifrar por que um simples relatório que ele enviou aos seus superiores desencadeou um massacre institucional.
O filme é o reflexo fiel de uma sociedade que perdeu a inocência. A paranoia em Condor não é um delírio, mas uma resposta racional a um sistema que se tornou opaco. A desconfiança permeia cada interação: Turner não pode confiar na agência para a qual trabalha, nos amigos que restaram, nem na polícia. Essa atmosfera é intensificada pelo isolamento de Turner que, em um ato de desespero, sequestra Kathy Hale (Faye Dunaway). A relação entre os dois evolui do medo para uma cumplicidade melancólica, servindo como o único resquício de humanidade em um mundo de frieza burocrática.
O ponto central do filme reside na relação entre o poder e a informação. Turner é perigoso não porque sabe atirar, mas porque sabe ler. Ele descobre que uma facção interna da CIA operava uma rede paralela para garantir o controle de recursos energéticos no Oriente Médio — um tema que soa assustadoramente profético para 2026. A corrupção aqui não é apenas moral, mas sistêmica; a traição vem de dentro, revelando que a “segurança nacional” é frequentemente usada como um eufemismo para interesses econômicos corporativos.
A direção de Sidney Pollack é precisa ao capturar o contraste entre o indivíduo e a metrópole. A fotografia de Owen Roizman utiliza tons de bege, cinza e azul, transformando Nova York em um labirinto de concreto frio e despersonalizado. O uso de teleobjetivas em cenas externas cria a sensação constante de que o protagonista está sendo vigiado, integrando o espectador ao estado mental de vigilância de Turner. A montagem mantém uma tensão latente, onde o perigo surge de espaços comuns, como um elevador ou uma calçada movimentada.
O filme termina com um dos diálogos mais poderosos do cinema político. Quando confrontado pelo alto escalão da agência sobre a moralidade de suas ações, Turner ouve que “não se trata de certo ou errado, mas de necessidade”. A crítica de Pollack é clara: a sociedade moderna criou monstros burocráticos que operam fora de qualquer controle democrático.
A solidão de Turner no final do filme, parado em frente à sede do New York Times, simboliza o dilema do informante. Ele acredita que a verdade o libertará, mas o sistema sugere que, talvez, a sociedade prefira o conforto da ignorância à dureza da realidade.
Três Dias do Condor permanece uma obra essencial porque não oferece resoluções fáceis. Ele questiona a ética da espionagem e o preço da informação em um mundo onde a verdade é uma mercadoria descartável. Cinquenta anos após seu lançamento, o filme continua a ser um espelho para os medos contemporâneos sobre vigilância e abuso de poder, provando que, no jogo das sombras, o maior inimigo é frequentemente aquele que segura o crachá ao seu lado.
Aqui está a ficha técnica do filme “Três Dias do Condor” (Three Days of the Condor, 1975):
- Título original: Three Days of the Condor
- Direção: Sidney Pollack
- Roteiro: Lorenzo Semple Jr., David Rayfiel
- Elenco:
- Robert Redford (Joe Turner / Condor)
- Faye Dunaway (Kathy Hale)
- Cliff Robertson (Higgins)
- Max von Sydow (Joubert)
- John Houseman (Wills)
- Música: Dave Grusin
- Cinematografia: Owen Roizman
- Edição: Don Guidice, Fredric Steinkamp
- Duração: 117 minutos
- Gênero: Thriller, Mistério
- País de origem: Estados Unidos
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