O Cinema de Walter Salles

Cinema

Marcelo Kricheldorf

Walter Salles ocupa um lugar único no grupo de cineastas da sétima arte. Como diretor, ele faz um retrato do imaginário brasileiro, abordando temas sociais e políticos.Sua obra, que foi o motor da “Retomada” do cinema brasileiro na década de 1990, evoluiu para uma investigação profunda sobre a memória, o afeto e as feridas abertas da história latino-americana, consolidando-se, atualmente, como uma das vozes mais éticas e estéticas do cinema mundial.
Nascido em 1956, Walter Salles cresceu entre o Brasil e o exterior,¹ experiência que lhe conferiu um olhar de “estrangeiro” dentro de sua própria terra, tema recorrente em sua filmografia. Sua transição dos documentários para a ficção em meados dos anos 90 trouxe um choque de realismo e sensibilidade ao cinema nacional. Com filmes como Terra Estrangeira (1995) e o icônico Central do Brasil (1998) — vencedor do Urso de Ouro e indicado ao Oscar — Salles não apenas recuperou a autoestima do público brasileiro, mas provou que o local, quando tratado com humanidade, torna-se universal.
A cinematografia de Salles é intrinsecamente ligada à sociologia brasileira. Ele frequentemente utiliza o “road movie” (filme de estrada) como metáfora para o descobrimento. Em sua obra, o Brasil não é um cenário estático, mas um território em busca de um pai ou de uma justiça que nunca chega.
A crítica à autoridade em seus filmes manifesta-se de duas formas: pela ausência (o Estado que não assiste o cidadão em Central do Brasil) e pela opressão (o Estado que sequestra e tortura em seu aclamado trabalho de 2024, Ainda Estou Aqui). Salles expõe como o poder arbitrário desmantela o núcleo familiar, transformando a dor privada em uma questão de memória pública.
Influenciado pelo Neorrealismo Italiano e pelo Cinema Novo de Nelson Pereira dos Santos, sua linguagem cinematográfica evita o excesso de cortes e valoriza o silêncio, permitindo que a paisagem, seja o sertão seco ou a Buenos Aires cinzenta. Há uma forma documental em sua ficção; ele busca a verdade no rosto de atores não profissionais e na luz natural, criando uma proximidade tátil com o espectador.
Walter Salles é um dos raros cineastas brasileiros com total trânsito em produções internacionais, como demonstrado em Diários de Motocicleta (2004) e Na Estrada (2012). No entanto, seu maior legado reside na sua atuação como viabilizador cultural. Através de sua produtora, a VideoFilmes, ele fomentou talentos e produziu obras significativas, moldando a estética da nova geração de cineastas brasileiros que hoje dominam festivais internacionais.
Atualmente, o cinema de Walter Salles reafirma-se como um bastião contra o esquecimento. O sucesso recente de suas obras sobre a ditadura militar demonstra que sua carreira não é apenas sobre fazer filmes, mas sobre construir um arquivo afetivo para o Brasil. Salles ensinou que o cinema pode ser, ao mesmo tempo, um espelho das nossas misérias e uma bússola para a nossa redenção política e social. Seu legado é a prova de que a arte é a ferramenta mais poderosa para reencontrar um país perdido de si mesmo.

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1 thought on “O Cinema de Walter Salles

  1. Salles deu uma injeção de energia quando fez Ainda Estou Aqui. Mas temos q olhar seu histórico pra ver seu potencial. E acredito q virão outros bons trabalhos q nos trarão prêmios internacionais

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