O episódio em que o ator Henri Castelli sofreu uma convulsão durante uma prova de resistência no Big Brother Brasil trouxe à tona uma discussão que vai além do reality show. A dinâmica, marcada por horas de esforço físico contínuo, privação de sono, limitação de água e pressão psicológica intensa, reúne fatores conhecidos por especialistas como gatilhos de colapsos neurológicos agudos.

Embora situações como essa sejam frequentemente tratadas como “casos isolados”, médicos e especialistas alertam que o corpo humano tem limites fisiológicos claros e que ignorá-los pode ter consequências graves.
Segundo o neurocirurgião Ricardo Graciano, o cérebro depende de equilíbrio para manter sua estabilidade elétrica. O sono é fundamental para organizar a atividade neuronal. Quando há privação prolongada, os mecanismos de inibição do cérebro ficam prejudicados, favorecendo descargas elétricas desorganizadas.
Se esse cenário é associado à desidratação e ao estresse físico intenso, o risco de crises neurológicas aumenta significativamente. Graciano destaca que crises convulsivas nem sempre estão ligadas a doenças neurológicas pré-existentes. Em situações extremas, mesmo pessoas sem histórico podem apresentar convulsões, como resposta aguda a uma sobrecarga que ultrapassou a capacidade de adaptação do organismo.
Antes da convulsão, o corpo costuma emitir sinais claros, como confusão mental, dificuldade de raciocínio, tontura, visão turva, lapsos de memória e desorientação. O problema, segundo o médico, é que em ambientes competitivos esses alertas costumam ser ignorados.
da Unna Pharma, chama atenção para fatores metabólicos frequentemente negligenciados. O cérebro é altamente dependente de água, eletrólitos e micronutrientes. A desidratação altera o equilíbrio de sódio, potássio e magnésio, essenciais para a condução dos impulsos nervosos.
Além disso, deficiências de vitaminas do complexo B, ferro e magnésio comprometem o metabolismo cerebral e a função neuromuscular. Em situações de esforço prolongado e alta demanda emocional, o consumo desses nutrientes aumenta. Sem reposição adequada, o organismo entra em falha. Não se trata apenas de exaustão, mas de um desequilíbrio fisiológico real.
O mentor de líderes Flávio Lettieri, autor do livro Ansiedade, traz uma perspectiva que une experiência pessoal e atuação profissional. Após vivenciar um colapso de ansiedade, ele passou a estudar os impactos do estresse crônico em ambientes de alta performance.
Segundo Lettieri, o estresse prolongado mantém o organismo em estado de alerta constante. Cortisol e adrenalina elevados desorganizam o sono, alteram a percepção corporal e reduzem a capacidade do cérebro de reconhecer sinais de perigo. A pessoa continua funcionando até o momento em que o corpo simplesmente interrompe o processo.
Para ele, o caso expõe uma lógica cultural mais ampla. A exaustão é normalizada, resistir vira mérito e adoecer passa a ser visto como fraqueza, até que o corpo cobra a conta.
A psicóloga Laura Zambotto reforça que colapsos físicos muitas vezes têm raízes emocionais profundas. O sofrimento psíquico nem sempre aparece primeiro como ansiedade consciente. Em muitos casos, manifesta-se no corpo após conflitos e tensões serem somatizados.
Quando não há pausas, descanso e espaço para elaboração emocional, o organismo entra em modo de sobrevivência. A crise física passa a funcionar como um pedido de socorro. Ambientes de confinamento, competição intensa e exposição pública ampliam o risco de desorganização emocional e física.
Especialistas apontam medidas práticas para reduzir riscos em contextos de alta exigência. Sono regular e reparador é essencial para a estabilidade cerebral. Hidratação contínua, com atenção aos eletrólitos, ajuda a manter o funcionamento neurológico adequado. A reposição de micronutrientes, como vitaminas do complexo B, magnésio e ferro, é fundamental em períodos de desgaste intenso.
A gestão ativa do estresse, com pausas reais e suporte psicológico, também é apontada como fator decisivo. Além disso, é imprescindível atenção aos sinais de alerta, como confusão mental, tontura e exaustão extrema.
“O cérebro não falha de forma súbita. Ele avisa. O problema é quando insistimos em não escutar”, conclui Ricardo Graciano.
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