Caçadores da simplicidade perdida

Cinema

Para que pecadores precisam combater demônios numa batalha softporn depois da outra? Se podemos nos emocionar com Hamnet, descobrir o Valor Sentimental junto com o Agente secreto.

O cinema, herdeiro direto do teatro, pode fazer drama sem apelação. Os Pecadores começam tão bem nos transportando para a terra do racismo sem lei do Sul americano até começar a flertar com a estética adolescente dos zumbis.

Na Batalha, Di Caprio e Sean Penn se rendem de cara aos encantos do softporn ,que deu certo ano passado no multiOscar de Anora. Conseguiram até uma ereção durante uma dramática rendição na história do utópico grupo de defesa dos imigrantes.

No século passado, o escritor Aldous Huxley previu em seu Admirável Mundo Novo que a sociedade moderna seria controlada pelos excessos de diversões e consumo. Bastava empanturrar os seres humanos com seus próprios impulsos.

Isso foi muito tempo antes de existir internet e a televisão ainda engatinhava. Mas a profecia da Sociedade do Cansaço se realiza quando um enxame inconsciente e insaciável corre atrás dos potes de açúcar, logo esgotados e substituídos por outros mais coloridos e enjoativos.

A Sociedade do Cansaço é um diagnóstico certeiro do filósofo sul-coreano, professor da Universidade de Berlim, Byung-Chul Han. Ele mostra como as apelações fantasmagóricas ou pornôs atraem as ébrias mariposas do mundo digital.

Hamnet nos leva ao mundo dos anos 1500, numa Inglaterra ainda cheia de bosques e feitiços. Ao palco de pessoas reais, sentimentos simples e verdadeiros.

Assim como Valor Sentimental, num foco mais fechado da relação familiar, um pai ausente e carente. Duas irmãs tão diferentes mas ligadas afetivamente. Algo que irradia da tela do cinema.

Sem barulheira, pisca-pisca, efeitos gráficos criados nos computadores com o objetivo de gerar uma adrenalina falsa e estéril em quem assiste. Que logo se esgota e logo precisa de mais.

Hamnet volta à simplicidade do teatro de luzes e fantoches. Do palco onde a plateia toca nos atores, como era no tempo de Shakespeare. Os atores sentiam o cheiro do público que ficava em pé e pagava em moedas. Na Londres do século 16, banho era um luxo mensal ou anual.

O delicado toque da atriz Jessie Buckley na mão Hamnet do palco, com suaves intercalações do texto original de Hamlet, não precisa de nenhum raio ou trovão fabricado, nenhuma lágrima sequer, para emocionar o público. A música de fundo de Karl Richter, quase sem se fazer notar, leva ao clímax com sutileza.

No Agente Secreto, Kleber Mendonça só precisa contar uma história. E isso basta. Dá um banho de Brasil. Os atores são escolhidos com habilidade feliniana. 

O personagem do empresário paulista só pode ser visto como uma rixa entre Sul e Nordeste para quem não conheceu os tempos em que diretores da Fiesp colaboravam com a ditadura.

A burocracia da época dos governos militares é reproduzida com humor e ironia kafkiana. Assim como a violência e os medos transformados em delírios.

Para ver como era de fato, basta assistir a série documental sobre os anos Collor, na Globo Play. Quando o Caçador de Marajás convoca os servidores para comparecerem a suas repartições eles são tantos que não cabem nos prédios.

 Concorrente ao Agente Secreto, o filme indiano Homebound é outro exemplo de como fazer cinema sem artifícios caros e apelativos. Uma simples história entre dois amigos que fazem um concurso público (uma burocracia brasileira multiplicada por 100) termina na tragédia real e brutal da pandemia de Covid.

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2 thoughts on “Caçadores da simplicidade perdida

  1. Belo artigo, André! Gostei da análise. Dos filmes que você citou, eu só não vi Pecadores. Os outros 3 estão entre os meus favoritos do próximo Oscar. Adorei Hamnet, Uma Batalha Após a Outra e O Agente Secreto! Estou com dificuldade de escolher por quem torcer na premiação.

  2. Belo artigo, André! Gostei da análise. Dos filmes que você citou, eu só não vi Pecadores. Esses 3 que você citou, estão entre os meus favoritos do próximo Oscar. Adorei Hamnet, Uma Batalha Após a Outra e O Agente Secreto! Ja Valor Sentinental eu já não curti tanto. Estou com dificuldade de escolher por quem torcer na premiação.

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