A Construção Métrica e Labiríntica do Overlook Hotel no Filme O Iluminado de Stanley Kubrick

Cinema

Marcelo Kricheldorf

No santuário do cinema de horror, poucos espaços são tão icônicos e perturbadores quanto o Overlook Hotel de O Iluminado (1980). Sob a direção meticulosa de Stanley Kubrick, o hotel deixa de ser um simples cenário para se tornar o protagonista antagonista da trama. Através de uma construção métrica rigorosa e de uma arquitetura que desafia a lógica espacial, Kubrick transmutou o medo do “sobrenatural” em um terror geométrico e psicológico, onde o espaço físico é a ferramenta principal de desintegração da sanidade humana.
Embora a semente da narrativa pertença a Stephen King, Kubrick subverteu a obra original. Enquanto King descrevia um hotel mal-assombrado por entidades quase palpáveis, Kubrick buscou algo mais insidioso. O Overlook é um lugar que carrega “Memórias” distorcidas; construído sobre um cemitério indígena, simbolizando o rastro de violência da história americana. Aqui, o hotel não apenas abriga fantasmas; ele é um organismo que utiliza sua vastidão para isolar e consumir seus hóspedes. Ele “escolhe” Jack Torrance, alimentando-se de suas falhas morais e de seu isolamento.
A genialidade de Kubrick reside na construção arquitetônica do medo. Diferente do terror convencional que utiliza sombras e becos escuros, o Overlook é amplamente iluminado, expondo a vastidão aterrorizante de seus salões. A construção da atmosfera é feita através da simetria central e do uso de lentes grande-angulares, que deformam levemente as extremidades da imagem, criando uma sensação de opressão em meio ao espaço vazio.
O uso da Steadicam é o que define a métrica do filme. Ao acompanhar Danny em seu triciclo, a câmera estabelece um ritmo hipnótico. O som alternado dos pneus no piso de madeira e nos tapetes cria uma métrica sonora que antecipa o choque. O tapete de Hicks, com seu padrão hexagonal laranja e marrom, atua como uma representação visual do próprio labirinto, confinando os personagens em uma malha geométrica da qual não podem escapar.
O labirinto é a metáfora central da obra. Externamente, o labirinto de sebes é o local do clímax; internamente, o próprio hotel é um labirinto impossível. Estudos de plantas baixas realizados por analistas de cinema revelam que a arquitetura do Overlook é deliberadamente paradoxal: janelas aparecem em escritórios que deveriam estar no centro do prédio, e portas levam a corredores que não possuem conexão lógica.
Essa desorientação espacial é uma técnica de gaslighting* visual. O espectador, embora possa não perceber conscientemente, sente que algo está errado. Essa impossibilidade arquitetônica reflete o labirinto mental de Jack: conforme ele perde o senso de realidade, o hotel se fecha sobre ele, tornando-se uma extensão de sua psique fragmentada.
O Overlook funciona como um arquivo do tempo. O uso do espaço no filme reforça a ideia de que o passado, o presente e o futuro coexistem naquelas paredes. A cena do elevador de sangue é a manifestação física da memória traumática do local. O hotel não permite que a história morra; ele a recicla.
A conclusão do filme, com a fotografia de 1921, sela o destino de Jack como parte eterna da métrica do hotel. Ele não apenas morreu no Overlook; ele sempre pertenceu ao Overlook. O hotel vence ao converter a individualidade humana em um elemento decorativo de sua estrutura eterna.
A construção métrica e labiríntica do Overlook Hotel em O Iluminado é um estudo de caso sobre como o design de produção e a cinematografia podem ditar o tom emocional de uma obra. Ao substituir o susto fácil pela desorientação geométrica, Kubrick criou um monumento ao terror psicológico. O Overlook permanece como um lembrete de que o espaço que habitamos pode ser tão perigoso quanto os demônios que carregamos internamente.
Para uma análise visual das anomalias espaciais do filme, o documentário Room 237 (Quarto 237) explora profundamente as teorias sobre a planta impossível do hotel.

Informações Adicionais

O gaslighting visual consiste em alterar o ambiente físico da vítima como mudar objetos de lugar ou a intensidade da luz e negar essas mudanças quando confrontado.O objetivo é desorientar a pessoa, fazendo-a questionar seus sentidos e sua sanidade mental. É uma forma de abuso psicológico que busca o controle através da confusão sensorial.

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