ANÁLISE DO FILME – A VIZINHA PERFEITA (2025)

Cinema Crime Critica de Filmes

Data de lançamento: 24 de janeiro de 2025

Direção: Geeta Gandbhir

Produção: Geeta Gandbhir, Nikon Kwantu, Alisa Payne, Sam Bisbee

Duração: 1h36min

Produtoras: Park Pictures, Message Pictures, SO’B Productions

Distribuição: Netflix

Gênero: Documentário

Em uma pesquisa rápida, constatei que 66% do público aprovou o filme, segundo dados do Google.

Ao se apresentar como documentário, a obra despertou imediatamente minha curiosidade. Eu amo documentários e considero fascinante a forma como são conduzidos e como suas narrativas são construídas. Tive o privilégio de acompanhar algumas gravações desse gênero e sei o quanto é potente quando o entrevistado se sente à vontade para expressar suas emoções. Isso nos comove no set de gravação e nos deixa extasiados ao final da experiência.

E com A Vizinha Perfeita não foi diferente. O filme utiliza imagens de câmeras policiais para revelar como uma antiga briga entre vizinhos terminou em morte, abordando temas como medo, preconceito e a controversa lei da legítima defesa nos Estados Unidos.

Para quem está acostumado a outra linguagem cinematográfica, o impacto é imediato. A narrativa em câmera subjetiva, especialmente por meio da câmera do policial, que registra todo o episódio, insere o espectador dentro da cena de maneira singular, quase desconfortável, como se estivéssemos ali, testemunhando tudo em tempo real.

O documentário escancara a desigualdade social e o preconceito que ainda permeiam o mundo. Uma mulher se incomodava profundamente com crianças que brincavam alegremente na rua. Esse incômodo cresceu de forma tão violenta que a levou a cometer um crime. No entanto, o que mais me perturbou não foi apenas o ato em si, mas o propósito por trás dele, algo cuidadosamente pensado e articulado. As inúmeras ligações para a polícia, recheadas de mentiras e acusações sem sentido, revelam uma construção deliberada de uma falsa ameaça. Ao longo do filme, torna-se claro que algo estava sendo tramado.

A morte de Ajike “AJ” Owens foi fútil, como tantas outras que infelizmente vemos todos os dias. Susan Lorincz se apoiou na lei. Fui pesquisar sobre isso e minha indignação só aumentou.

A lei “Stand Your Ground”, da Flórida, em vigor desde 2005, elimina o chamado dever de recuar (duty to retreat), permitindo que uma pessoa utilize força letal em qualquer local onde esteja legalmente, caso alegue sentir ameaça iminente de morte ou lesão grave, sem a obrigação de tentar fugir primeiro. Do ponto de vista jurídico, se os promotores entenderem que o atirador agiu sob a proteção dessa lei, ele pode sequer ser processado.

No caso retratado, Susan atirou de dentro de sua casa, alvejando AJ Owens, o que resultou em sua morte e deixou três filhos órfãos. Quando foi levada à prisão, ela tentou se respaldar nessa legislação. No entanto, ainda existe a Justiça, e ela foi condenada.

O que me faz refletir não é apenas o fato de uma mulher branca ter atirado em uma mulher negra, mas qual é o valor que o ser humano atribui à própria vida e à vida do outro. Até que ponto a intolerância, o medo ou aquilo que nos incomoda podem nos levar a cometer tamanha atrocidade? E pior: sem culpa, inventando argumentos para se esconder atrás do próprio crime.

É por isso que este filme chegou ao Oscar. Ele retrata a desigualdade, o preconceito e o momento em que o ser humano ultrapassa todos os limites. Um filme que causa estranhamento, desconforto e reflexão, mas absolutamente necessário para reavaliarmos nossos valores humanos.

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