O Brasil vive em 2026 momentos auspiciosos na economia. Lidando com tantas variáveis de uma economia complexa como a brasileira, uma das dez maiores do planeta, as ações do atual governo federal que, pela Constituição da República, tem a responsabilidade de formular e exercer a politica econômica, levam a indicadores salutares.
Taxa de desemprego, IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), taxa de câmbio, saldo na balança comercial, taxa de inflação, taxa de crescimento da economia, e tantos outros indicadores estão, em geral, muito bem.
Não vou fazer análise de elevador: quanto subiu, quanto desceu…Me importa uma avaliação qualitativa do fenômeno em tela e sua relação com a política. Particularmente uma análise qualitativa do fato de que, mesmo com indicadores econômicos auspiciosos, o governo e o Presidente Lula não tem avaliações excepcionais e tem adversários fortes no seio da opinião pública que indicam que a oposição tem fôlego.
A infraestrutura (economia) condiciona a superestrutura (política), no linguajar marxiano. Pretendo comentar o quão importante é a ideologia na determinação de rumos da política, para além da importância fundamental da economia.
Por que um governo e seu líder, mesmo bem avaliado, não podem cruzar os braços e esperar as urnas abrirem imaginando que a vitória estaria assegurada antecipadamente? Porque a disputa político/eleitoral é muito mais complexa do que se imagina. Lembremos sempre do caso histórico inglês: Winston Churchill havia comandado a Inglaterra até a vitória contra o nazismo e na primeira eleição pós-guerra foi derrotado.
Há uma dimensão ideológica que tem sido negligenciada ou, no mínimo, pouco valorizada nas análises, que me parece ser muito importante para entendermos a conjuntura político-eleitoral.
A polarização entre correntes de pensamento à direita e à esquerda, para usar o velho modelo simplista, tem cristalizado posições de eleitores que só se explica por uma definição ideológica de escolha de lado. As pessoas, cidadãs eleitoras, escolhem um lado. Se escolhe time de futebol e se morre torcendo por ele, por que não se pode escolher uma ideologia, um lider, e ir com ele “hasta siempre”? Não me referi a escolher um partido porque a filiação é um ato de desdobramento administrativo e custo financeiro que afastam as pessoas, além do que as pessoas não querem ficar “presas” a partidos. Curiosamente se “prendem” a arquétipos ideológicos duradouros. Poucos brasileiros são filiados a partidos, mas muitos mais votam com fidelidade nos candidatos destes partidos que expressam a ideologia que introjetam, no mais das vezes com baixo nível de consciência disto.
Esta escolha é fundamentalmente derivada de uma visão de mundo, uma ideologia. A tal ponto que milhões não rompem com A ou B mesmo que estes tenham liderado governos não exitosos, ou tenham cometido algum erro do ponto de vista ético e/ou legal. Para simplificar a explicação da hipótese: podem falar o que quiserem destes líderes que a maioria de seus seguidores e eleitores não mudam de lado e continuam os apoiando e votando neles e em quem eles indicam.
Isto tem importância? Muita, porque isto realimenta candidaturas polarizadas; reforça as articulações em torno dos candidatos-polo; enfim, mantém a percepção de que o país está radicalizado, ou, noutro termo, polarizado. Mas há uma sutileza nisto tudo: projetos bastante diferentes estão sendo colocados para avaliação da sociedade e são diferentes a partir de ideologias, visões de mundo diferentes. Viva a polarização!
A ideologia é um componente estrutural da maneira como as pessoas refletem e agem em sociedade. Abstrair disto é de uma simplificação grosseira e mais, com uma perversa intenção: dizer que ideologia não tem importância, que é preciso “esquecer” a ideologia, que a ideologia “atrapalha”, que a polarização é “culpa” da ideologia. O que é valorizado pelos que pensam assim, principalmente aqueles que se auto-rotulam de centro, é o mérito do indivíduo candidato. Afinal, se todos os políticos são iguais mas o “meu” candidato tem um diferencial qualquer isto eu uso para pedir e justificar que o voto seja dado a ele.
Esta “pasteurização” desconstrói o locus da política como o espaço da disputa de projetos, com visões diferentes da história que passou e do mundo a criar, suscitando que o importante para definir um voto é mais simplório ainda que a visão empobrecida da meritocracia de uma candidatura: é a superficialidade da aparência, o boné que o/a candidato/a usa, o tom de voz que se tem, as fake News que espalha…
Isto abre caminho para simplificar e superficializar a disputa. Nada de profundo importa. E ideologia é profundo, estruturante. Ainda mais no planeta do tempo real, da curtida de coraçãozinho, das leituras de poucas linhas, da superficialidade em tudo…O que importa é a imagem, a aparência, o que o marqueteiro mostra. Por isto este profissional se tornou tão importante e regiamente bem pago na mercantilização da política. Afinal, tudo no capitalismo vira mercadoria, até as ações envolvidas nas eleições.
É mentira que a ideologia não existe. É mentira que os candidatos não devem se identificar pela sua visão de mundo. Por que? Porque quando se aponta visões diferentes de mundo se demonstra que um outro mundo é possível. Ai se começa o pôr o dedo na ferida das contradições, desde as do modo de produção capitalista às do sistema eleitoral. Isto incomoda.
A polarização político/ideológica/eleitoral existe desde sempre. Mas a quem interessa que o debate se dê apenas na superficialidade das aparências? Àqueles que não querem mudanças de essência, mas aceitam apenas as de aparência.
A polarização, portanto, aponta uma característica importante da disputa. Por traz da polarização há ideologia correndo nas veias. E, por causa disto, quando JB foi preso, convalidando sua impossibilidade de ser candidato, e substituído que foi por outro Bolsonaro (porque a marca é forte e galvaniza seus apoiadores; eles tem voto; eles tem base popular) as pesquisas já detectam em poucos dias sua ascensão à condição de maior adversário de Lula.
Derrotar JB nas eleições não acabou com o bolsonarismo; prender JB não acabou com o bolsonarismo; derrotar Flávio não acabará com o bolsonarismo. É um movimento que se articula em torno de uma visão de mundo, uma ideologia. Nunca antes na história deste país tantas pessoas se assumem publicamente como sendo “de direita”.
O que isto tem a ver com a condição econômica do país, tão bem conduzida pelo governo Lula? A constatação de que o péssimo governo de JB, sua postura monstruosa com relação à mulher, o negro, a população LGBT, etc. não impede que um de seus iguais apareça bem nas pesquisas. Por que? Porque a ideologia é o amálgama que os une. Ideologia de direita proto-fascista.
Esta é a constatação da importância da opção ideológica para explicar a polarização político/eleitoral em andamento.
Um assessor de Bill Clinton veio aconselhar a campanha eleitoral de FHC. Ao lhe perguntarem sobre a candidatura, ele disse “…é a economia, estupido”, para indicar o potencial eleitoral de FHC que tinha alguns bons indicadores econômicos.
A condição da economia é vital para a disputa. Se estivesse ruim, pioraria o poder de ganhar de Lula, mas reitero minha preocupação de que não basta discursar apenas com estes ótimos argumentos. Se fosse tão simples assim Lula estaria com muito mais indicação de voto do que tem, dados os indicadores que já mencionei.
A disputa tem uma dimensão que vai para além disto. A polarização esquerda X direita é ideológica. Abstrair disto é simplificar e poder ser surpreendido com o bom resultado do adversário.
Vamos adiante, lutando!
Rodrigo Botelho Campos – economista
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