Marcelo Kricheldorf
O filme Os Fuzis (1964), dirigido por Ruy Guerra, figura como uma das obras-primas do Cinema Novo, movimento que buscou desmistificar o Brasil através de uma estética crua e politicamente engajada. Lançado no emblemático ano do golpe militar, o longa-metragem não apenas retrata a miséria do sertão, mas disseca as estruturas de poder que perpetuam a desigualdade, utilizando uma narrativa que equilibra o rigor documental e o impacto dramático.
A narrativa se estabelece na pequena cidade de Milagres, no interior da Bahia, durante uma seca devastadora. O conflito central emerge quando um destacamento de soldados é enviado para proteger um carregamento de comida pertencente a um latifundiário local, impedindo que a população faminta saqueie o estoque. Este cenário serve de palco para uma profunda crítica ao poder e à autoridade: o exército, braço do Estado, atua não para proteger o cidadão, mas para garantir a propriedade privada e os interesses da elite econômica. O fuzil, que dá nome ao filme, simboliza a barreira violenta entre o alimento e a boca de quem tem fome.
A questão da fome e da pobreza é tratada por Guerra com uma crueza técnica impressionante. Através de planos fechados e uma montagem que privilegia o tempo real, o espectador é confrontado com a letargia dos corpos famintos. A fome aqui é apresentada como uma construção social e política; o grão existe, está estocado e visível, mas é inacessível. Em paralelo, a luta pela sobrevivência dos camponeses é desviada para o misticismo: a adoração de um boi “sagrado” revela como a alienação religiosa serve de paliativo para a impotência social, transferindo a esperança de mudança para o campo do milagre, enquanto a exploração terrena permanece intacta.
Neste contexto, a crítica à violência e à opressão ganha contornos psicológicos. O personagem Gaúcho representa a faísca da indignação e a busca por identidade e dignidade. Ele é o elemento externo que questiona a passividade tanto dos moradores quanto dos soldados, que cumprem ordens de forma burocrática e indiferente. A violência culmina no trágico embate final, evidenciando que, sob o amparo da opressão, a vida humana torna-se descartável. A relação entre o homem e a natureza também é redefinida: o sertão não é apenas um deserto físico, mas um espaço de aridez ética, onde o sol e a terra seca ecoam a dureza das relações sociais.
Por fim, Os Fuzis é um manifesto da influência do Cinema Novo, aplicando a premissa de “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” para produzir um cinema de consciência. Ruy Guerra utiliza o espaço geográfico do Nordeste para projetar uma alegoria do Brasil, onde a arma, a fome e o sagrado se entrelaçam em um ciclo de exploração. A obra permanece atual ao denunciar que a opressão não nasce apenas do cano do fuzil, mas da manutenção sistêmica da miséria e da negação da dignidade humana.
Ficha Técnica de Os Fuzis (1964)
- Título Original: Os Fuzis
- Direção: Ruy Guerra
- Roteiro: Ruy Guerra e Miguel Torres
- Elenco:
- Átila Iório como Mário
- Nelson Xavier como Pedro
- Maria Gladys como Luísa
- Hugo Carvana
- Paulo César Pereio
- Ivan de Souza
- Joel Barcelos
- Gênero: Drama
- Duração: 80 minutos
- País de Origem: Brasil
- Idioma: Português
- Orçamento: não disponível
- Estreia: 1964 (Brasil)
- Distribuidora: Sagres Filmes
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Parabéns pelo Artigo.