Uma foto, um artigo, uma entrevista podem parar uma guerra, mudar políticas de governos ou derrubar um presidente.
Dois documentários em exibição no Netflix, O Freelancer, o homem por trás da foto e Seymour Hersh: em busca da verdade, outro na Globoplay, Caçador de marajás, todos de 2025, mostram do que é capaz a tão maltratada liberdade de imprensa.
Em o Freelancer , o documentarista investiga a história por trás da foto da menina vietnamita correndo e chorando nua, com a pele queimada por Napalm, a bomba incendiária lançada pelos Estados Unidos em 1972.
É a foto mais reproduzida em todo o mundo como símbolo dos horrores da Guerra do Vietnam. E certamente impulsionou o governo dos Estados Unidos a admitir a derrota e sair do país asiático, que se reunificou, em 1975.
Os artigos de Seymour Hersh, sobre o massacre de My Lai (localidade onde soldados americanos fuzilaram centenas civis velhos, mulheres e bebês) e sobre as mentiras dos governantes americanos, deram outro empurrão para o fim da guerra.
Já o documentário sobre o governo de Fernando Collor e sua renúncia em 1992, depois do processo de impeachment, acompanha o trabalho dos repórteres em busca de um fato que comprometesse definitivamente o presidente com a corrupção.
Nos anos 90, a revista Veja bancou a busca do repórter Luis Costa Pinto. Ele colou em Pedro Collor até conseguir a entrevista, que foi a peça fundamental para o impeachment. Pedro denunciou o irmão presidente por envolvimento com a corrupção diretamente operada por Paulo Cesar Farias, o PC, que atuava como seu testa de ferro.
É uma história que envolve a intriga entre os dois irmãos, Pedro e Fernando, sob a proteção de uma mãe poderosa, D Leda, que teve ataque cardíaco no meio do processo, além das mortes misteriosas de PC e sua namorada, numa praia deserta alagoana. Pedro morreu em 1994 de câncer e Fernando está em prisão domiciliar.
A minissérie da Globoplay cobre o governo Collor, desde seus primeiros dias, quando congelou todos os depósitos bancários, maiores que 50 mil cruzeiros novos ( a moeda da época) levando ao desespero comerciantes, pequenos empresários e poupadores.
Aqueles anos foram a era de ouro da imprensa, diz Seymour Hersh, nas primeiras linhas de seu livro “O repórter”. Ele se define como um sobrevivente (88 anos) de uma época em que os repórteres não tinham que competir com notícias 24 horas de TV a cabo e era livre para viajar para qualquer lugar, no momento que desejasse, com o cartão de crédito da empresa.
Hersh nem se refere aos tempos atuais de digitalização, mas já testemunha os cortes de empregos nas empresas jornalísticas, dos salários mais altos e dos orçamentos para reportagens mais demoradas e profundas.
Para ele, a inundação de informações falsas, divulgadas pelos governos ou mal apuradas, acabam anestesiando o público com a impressão de que aquela é a verdade.
Em seu trabalho, muitas vezes solitário, sem muita simpatia de colegas e editores, Hersh usou frequentemente fontes não reveladas da CIA, NSA e FBI, para desmascarar ações e declarações de presidentes como Kennedy, Nixon, Ford, Clinton e Obama.
“Todos os governos mentem”, é o lema de Hersh.
Desde o massacre de My Lai, nos final dos anos 60, até o assassinato de Bin Laden, no Paquistão, em 2011, passando pela denúncia das torturas realizadas por tropas americanas, no presídio de Abu Ghraib, Iraque, em 2004, suas reportagens receberam os maiores prêmios do jornalismo norte-americano.
O documentário sobre sua vida registra sua trajetória profissional, suas relações com os poderosos editores dos New York Times, Washington Post e da revista New Yorker.
Seu livro fecha com uma declaração de amor à profissão do repórter: “Passei a maior parte da minha carreira escrevendo matérias que questionavam a narrativa oficial e fui muito recompensado com isso”. Raros jornalistas brasileiros poderiam dizer o mesmo.
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