Marcelo Kricheldorf
Lançado em 1933, Ganga Bruta, dirigido por Humberto Mauro, permanece como uma das obras mais singulares e provocativas do cinema brasileiro. Situado no limiar entre o cinema mudo e o sonoro, o filme não é apenas um exercício de estética vanguardista, mas uma radiografia impiedosa das contradições de uma sociedade brasileira que tentava se modernizar sem abandonar seus alicerces patriarcais e violentos.
A narrativa centra-se em Marcos, um engenheiro que personifica o progresso técnico. No entanto, o enredo é desencadeado por um ato de barbárie: Marcos mata a esposa na noite de núpcias ao descobrir que ela não era “pura”. Após a absolvição jurídica — um reflexo direto da moral da época —, ele parte para uma pequena cidade para construir uma fábrica. A trama evolui em um triângulo amoroso entre Marcos, a jovem Sônia e seu noivo Décio, culminando em um embate onde a civilização dá lugar ao instinto animal. A narrativa de Mauro utiliza o silêncio e o som diegético para acentuar a tensão psicológica de um homem que tenta fugir de sua própria natureza.
Humberto Mauro utiliza o protagonista para criticar a hipocrisia da burguesia brasileira. Marcos é o “homem de bem”, educado e técnico, mas cuja honra reside na posse do corpo feminino. O filme desconstrói o matrimônio como instituição sagrada, revelando-o como um contrato de propriedade. A facilidade com que o crime de Marcos é esquecido pela sociedade sugere que, para a elite burguesa, a preservação da “honra masculina” justifica a aniquilação da mulher. O casamento, aqui, não é um refúgio de amor, mas o gatilho para a tragédia e a repressão.
O título é uma metáfora poderosa. No vocabulário da mineração, a “ganga” é a substância que envolve o mineral precioso; ela é bruta, impura e precisa ser trabalhada. Marcos é a própria ganga: um indivíduo em busca de uma identidade que concilie seu papel social (o engenheiro moderno) com seu âmago violento (o assassino). Sua jornada em Guaraíba é uma tentativa de lapidação interna que falha constantemente diante das tentações e dos fantasmas do passado.
A relação entre os sexos em Ganga Bruta é marcada pela objetificação e pela disputa de poder. Sônia representa a força vital que atrai Marcos, mas ela é disputada como um território. Mauro, mestre em integrar o cenário à psicologia dos personagens, utiliza a natureza como um espelho das pulsões humanas. Enquanto a fábrica representa a ordem e a rigidez, as águas das cascatas e a mata representam o caos e a sexualidade reprimida. A natureza em Mauro não é meramente decorativa; ela é um elemento ativo que purifica e corrompe, onde o natural e social entram em colapso.
Ganga Bruta transcende seu tempo ao mostrar que o progresso industrial não garante o progresso ético. Através de uma montagem rítmica influenciada pelo cinema soviético e pelo expressionismo, Humberto Mauro entregou um estudo sobre a alma brasileira que ainda ressoa pela sua crueza e beleza visual.
Ficha Técnica de Ganga Bruta (1933)
- Título Original: Ganga Bruta
- Direção: Humberto Mauro
- Roteiro: Humberto Mauro e Octávio Gabus Mendes
- Elenco:
- Durval Bellini como Marcos;
- Déa Selva como Sônia;
- Lu Marival como a esposa de Marcos;
- Décio Murillo como Décio;
- Andréa Duarte como a mãe de Décio;
- Alfredo Nunes como mordomo; e
- Ivan Villar como criado.
- Gênero: Drama
- Duração: 82 minutos
- País de Origem: Brasil
- Idioma: Português
- Orçamento: não disponível
- Estreia: 1933 (Brasil)
- Distribuidora: Cinédia
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