Marcelo Kricheldorf
Lançado em 1984 e dirigido pelo mestre Miloš Forman, Amadeus não é apenas uma cinebiografia, mas uma reflexão profunda sobre a natureza do talento, da fé e da fragilidade humana. Vencedor de 8 Oscars, o longa-metragem utiliza a figura histórica de Wolfgang Amadeus Mozart como palco para um duelo existencial entre a mediocridade devota e a genialidade irreverente.
A trama se desenrola a partir das confissões de Antonio Salieri, o antigo compositor da corte austríaca que, em sua velhice e isolado em um hospício, afirma ter assassinado Mozart. A narrativa não linear nos transporta à Viena do século XVIII, onde Salieri, um homem que dedicou sua vida a Deus em troca de glória musical, vê seu mundo ruir com a chegada de um jovem prodígio. O filme subverte o gênero biográfico ao colocar o “vilão” como o narrador e o único personagem capaz de compreender verdadeiramente a magnitude da música de seu rival.
Mozart é retratado como uma força da natureza: um gênio que compõe sinfonias e óperas inteiras mentalmente, transcrevendo-as sem um único rascunho ou erro. Contudo, essa divindade criativa contrasta com sua personalidade infantil, vulgar e, por vezes, beirando a loucura. Sua risada estridente e seu comportamento inadequado em uma corte regida por etiquetas rígidas sugerem que a genialidade é um dom aleatório de Deus, que escolheu um “instrumento” imperfeito para manifestar a perfeição.
O fio condutor da narrativa é a inveja patológica de Salieri. Ele não odeia Mozart por sua pessoa, mas odeia a Deus por ter concedido tal talento a um ser que ele considera indigno. Essa rivalidade, embora baseada em um mito histórico, já que na vida real eles eram colegas profissionais com uma competição saudável; serve para ilustrar o sofrimento daquele que reconhece o belo, mas é incapaz de produzi-lo.
Amadeus explora o conflito entre o controle e a tradição de Saliere e o instinto e a paixão de Mozart. Na sociedade vienense, a arte era um ornamento de poder; para Mozart, era uma necessidade de expressão autêntica que frequentemente desafiava os limites impostos pelo Imperador José II. A busca por identidade permeia ambos: Mozart tenta se libertar da sombra opressora de seu pai, Leopoldo, enquanto Salieri perde sua identidade na obsessão pelo rival.
A essência do filme gira em torno da última composição de Mozart, deixada inacabada devido à sua morte em 5 de dezembro de 1791. Enfraquecido pela doença e atormentado por visões do pai morto, Mozart dita suas últimas notas para um Salieri que, ironicamente, o ajuda a terminar a missa fúnebre que servirá para ambos. A morte de Mozart em uma vala comum simboliza a indiferença momentânea do mundo, mas o ato final reafirma seu legado imortal. Enquanto a música de Mozart continua a ecoar pelos séculos, Salieri é condenado ao esquecimento, restando-lhe apenas o título de testemunha da glória alheia.
Ficha Técnica de Amadeus (1984)
- Título Original: Amadeus
- Direção: Miloš Forman
- Roteiro: Peter Shaffer
- Elenco:
- F. Murray Abraham – Antonio Salieri
- Tom Hulce – Wolfgang Amadeus Mozart
- Elizabeth Berridge – Constanze Mozart
- Simon Callow -,Emanuel Schikanaeder
- Roy Dotrice – Leopold Mozart
- Christine Ebersole – Catherina Cavalieri
- Jeffrey Jones – Imperador José II
- Charles Kay – conde de Orsini-Rosenberg
- Vincent Schiavelli – Mayordomo de Salieri
- Barbara Bryne – Sr.ª Weber
- Martin Cavani – jovem Salieri
- Roderick Cook – conde Von Struck
- Milan Demjanenko – Karl Mozart
- Peter DiGesu – Francesco Salieri
- Gênero: Drama, Biográfico
- Duração: 160 minutos
- País de Origem: EUA
- Idioma: Inglês
- Estreia: 1984 (EUA)
- Distribuidora: Orion Pictures
- Prêmios: 8 Oscars, incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor
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Parabéns pela análise
Uma obra Prima e tenho o prazer de ter este filme em blu-ray.
parabéns pelo artigo.