Marcelo Kricheldorf
Lançado na virada da década de 1950 para 1960, o curta-metragem Arraial do Cabo, dirigido por Paulo César Saraceni e fotografado por Mário Carneiro, não é apenas um registro etnográfico, mas o manifesto estético e político que lançou as bases do Cinema Novo. Ao documentar a pacata vila de pescadores fluminense, a obra captura o exato momento do choque entre o Brasil tradicional e o projeto de modernização desenvolvimentista, transformando a observação social em poesia crítica.
Diferente dos documentários tradicionais da época, a narrativa de Saraceni e Carneiro não se prende a didatismos. O “enredo” é a própria passagem do tempo: a câmera acompanha o rigoroso e coletivo trabalho da pesca artesana; para, em seguida, contrastá-lo com a chegada imponente da Companhia Nacional de Álcalis. A montagem sugere que o progresso não vem para somar, mas para substituir, deslocando o pescador de seu papel de protagonista da própria subsistência para a condição de operário ou espectador da industrialização.
A vida em Arraial do Cabo é apresentada como uma extensão do meio ambiente. A relação entre o homem e a natureza é de dependência mútua e respeito aos ciclos do mar. A cultura popular emana desse cotidiano; ela não é um adereço folclórico, mas a forma como a comunidade se organiza para sobreviver. Quando a indústria se estabelece, essa simbiose é rompida. O mar, antes um espaço de liberdade e sustento direto, passa a ser mediado pela lógica do capital, transformando o peixe em mercadoria de leilão e o homem em engrenagem de um sistema que ele não domina.
O filme mergulha na questão da identidade nacional ao expor o abismo entre o “Brasil oficial”, que buscava o progresso a qualquer custo, e o “Brasil real”, composto por massas marginalizadas por esse mesmo avanço. Saraceni utiliza o microcosmo de Arraial para questionar que tipo de nação estava sendo construída: uma que integra suas tradições ou uma que as soterra sob o concreto das fábricas? A obra denuncia que o desenvolvimento, sem justiça social, resulta apenas em alienação.
Do ponto de vista técnico, Arraial do Cabo rompeu com os padrões da Vera Cruz e do cinema de estúdio. Mário Carneiro, ao utilizar a câmera na mão, conferiu ao filme uma agilidade e uma crueza que permitiam “respirar” junto com os pescadores. A fotografia em alto contraste e o uso expressivo do som que muitas vezes se sobrepõe à imagem para criar tensão. Anteciparam o conceito de “estética da fome” e o lema de “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. O filme bebe da fonte do Neorrealismo Italiano, mas com uma identidade puramente brasileira.
Por fim, Arraial do Cabo é uma obra fundamental para entender o cinema como ferramenta de reflexão social. Ele não apenas registrou o fim de um modo de vida, mas inaugurou uma forma de olhar para o Brasil que prioriza o humano sobre o monumento, e a verdade sobre o artifício. É o retrato de um país que, ao tentar se modernizar, muitas vezes esquece de olhar para aqueles que lançam as redes ao mar.
Os “protagonistas” são os próprios pescadores da vila fluminense, que não são creditados individualmente por nomes artísticos, pois o filme foca na coletividade do trabalho e na resistência cultural
Ficha Técnica de Arraial do Cabo (1959)
- Título Original: Arraial do Cabo
- Direção: Paulo César Saraceni
- Roteiro: Paulo César Saraceni e Luiz Paulo dos Santos
- Gênero: Documentário, Drama
- Duração: 18 minutos
- País de Origem: Brasil
- Idioma: Português
- Estreia: 1959 (Brasil)
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Parabéns pela análise!
Parabéns pelo artigo