Marcelo Kricheldorf
Realizado em 1973, Hotel Monterey é uma das obras mais radicais de Chantal Akerman. Filmado durante sua juventude em Nova York, o documentário mudo de 62 minutos abdica de diálogos e trilha sonora para transformar um hotel decadente no Upper West Side em um personagem vivo. Mais do que um registro documental, o filme é um ensaio visual sobre o tempo, o espaço e a condição humana na modernidade.
A estrutura do filme substitui o roteiro convencional por uma jornada vertical. A narrativa começa no térreo, explorando o saguão e as áreas de convivência social, e gradualmente sobe pelos elevadores e corredores claustrofóbicos até atingir os quartos e, finalmente, o telhado. Esse movimento ascendente culmina na transição da noite para o dia, onde a câmera finalmente encontra o horizonte aberto de Manhattan. Essa escolha estrutural sugere uma busca por libertação ou uma saída do isolamento imposto pelas paredes do edifício.
Akerman utiliza o cotidiano não como um pano de fundo, mas como o tema central. Através de planos estáticos e extremamente longos, o filme força o espectador a confrontar o banal. Portas que não se abrem, luzes de neon piscando e a textura das paredes tornam-se eventos dramáticos. Essa abordagem eleva o “tempo morto” do cinema a um nível de contemplação existencial, onde o cotidiano é revelado em sua forma mais crua e despida de artifícios.
Os habitantes do Hotel Monterey são retratados como figuras fantasmagóricas e anônimas. O hotel, na época, servia de abrigo para idosos e pessoas marginalizadas economicamente. Akerman filma esses rostos de forma frontal e impassível, criando um senso de identidade fragmentada. A anonimidade aqui não é apenas a falta de um nome, mas um comentário sobre a invisibilidade social. O filme transforma o espectador em um hóspede silencioso que compartilha a solidão de estranhos sem nunca conhecê-los de fato.
A experimentação de Akerman reside na subversão da técnica. Influenciada pelo cinema estruturalista americano, ela explora a geometria dos espaços. Os corredores longos e estreitos tornam-se estudos de perspectiva e profundidade, enquanto a granulação da película e o jogo de luz e sombra (claro-escuro) conferem à imagem uma qualidade quase pictórica. A ausência de som não é uma carência, mas uma ferramenta política e estética que intensifica a experiência visual e exige uma atenção absoluta do público.
Hotel Monterey habita uma zona cinzenta entre o espaço público e o privado. Os corredores são locais de passagem (públicos), mas carregam a intimidade de quem neles vive. A câmera de Akerman posiciona-se frequentemente em soleiras ou ângulos que sugerem um voyeurismo respeitoso. Ela observa sem invadir, questionando o limite da privacidade em ambientes coletivos. O hotel torna-se um microcosmo da sociedade urbana: um lugar onde as pessoas estão fisicamente próximas, mas emocionalmente isoladas.
Por fim, o filme atua como uma crítica à desumanização da sociedade moderna. Ao focar em um local de transição e decadência, Akerman denuncia a frieza das metrópoles que relegam os “indesejados” a espaços de confinamento e tédio. Hotel Monterey não nos diz o que sentir; ele nos obriga a ocupar o espaço e a sentir o peso do tempo, transformando a observação em um ato de empatia profunda e resistência cinematográfica.
Ficha Técnica de Hotel Monterey (1973)
- Título Original: Hotel Monterey
- Direção: Chantal Akerman
- Roteiro: Chantal Akerman
- Gênero: Documentário Experimental
- Duração: 62 minutos
- País de Origem: Bélgica/França
- Idioma: Inglês
- Estreia: 1973 (Festival de Cinema de Nova York)
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Parabéns pela análise, muito bem escrita!