Análise – “O MESTRE DOS BRINQUEDOS 2” (1990)

Critica de Filmes Terror

A franquia Mestre dos Brinquedos é um grande conjunto de contradições. É extensa e longeva, colecionando mais títulos do que algumas franquias célebres do gênero do terror, apesar de não ser excepcional em nada. Nem mesmo particularmente boa. Por essa presença semiconstante, pode-se dizer que são filmes conhecidos, mesmo que não tenham exatamente uma grande legião de fãs entusiasmados. Apenas alguns gatos pingados com alguma fixação bizarra em continuar investindo tempo nisso. Alguns até se sujeitam a escrever sobre. O segundo filme da franquia também é um representante exemplar dessa contradição. O Mestre dos Brinquedos 2, de 1990, repete vários pontos da trama do filme original, mas também representa uma diferença leve de abordagem que viria a definir o futuro dos filmes seguintes.

A primeira cena já diz muito sobre o tom que a produção vai utilizar, com a câmera passeando lentamente através das lápides de um velho cemitério numa noite escura e tempestuosa. Um clichê clássico do terror, empregado aqui quase como um pastiche de si próprio. Depois disso, a trama nos leva novamente ao Bodega Bay Inn, o hotel na costa da California onde transcorreram os eventos do filme anterior, mas que, infelizmente, não conta com um grupo de personagens tão curioso quanto o grupo de psíquicos que ali foram apresentados. Na verdade, a maioria os personagens humanos desse filme são bem chatos. Uma equipe de investigadores do sobrenatural sancionada pelo governo, composta por indivíduos indescritíveis por serem tão genéricos, e que estão lá apenas para servirem de vítimas vazias para os fantoches. A líder da equipe é Carolyn (Elizabeth Maclellan), que deseja desvendar os segredos dos estranhos eventos que já foram relatados no hotel através dos anos. A personagem mais interessante do grupo é a médium Camille (Nita Talbot), que infelizmente também é a primeira a morrer nas mãos dos bonecos. Após o súbito desaparescimento de Camille, entra em cena seu filho Michael (Collin Bernsen), um esterótipo tão perfeito de galã másculo dos anos 80 que parece ter sido gerado por inteligência artificial com o seguinte prompt: “faça um boneco Ken vintage que ganhou vida e foi muito pra academia”.

David Allen, supervisor de efeitos especiais e designer principal dos bonecos, assume a direção desse segundo filme, trazendo mais da inventividade e dos bons efeitos práticos que são o ponto alto da franquia. Os fantoches possuem uma presença real em cena, que não é atrapalhada por suas performances silenciosas. Há alguns momentos realmente perturbadores envolvendo especialmente Blade e Torch, o novo fantoche apresentado nesse filme – uma espécie de general alemão da primeira guerra com uma mandíbula feita de munição de revólver e um lança-chamas no braço direito. Ainda assim, o grande trunfo de O Mestre dos Brinquedos 2 é a performance de Steven Welles como o personagem título: Andre Toulon, o marionetista criador dos fantoches, que o trazem de volta a vida após passar décadas apodrecendo em seu túmulo. Essa nova encarnação de Toulon é dieferente em vários aspectos daquela interpretada por William Hickey. Enquanto no filme anterior fica entendido que os fantoches se tornam violentos por não terem mais a influência benevolente de seu antigo mestre, em O Mestre dos Brinquedos 2 eles atacam suas vítimas desavisadas unicamente pela vontade de Toulon. Welles encarna essa nova vilania do personagem com uma certa maestria, se levarmos em consideração que o faz debaixo de uma caracterização complexa, com seu rosto escondido por óculos e bandagens que com certeza são uma referência direta a Claude Rains em O Homem Invisível de 1933. O ator só mostra seu rosto verdadeiro numa cena de flashback, que revela como Toulon encontrou o ritual que dá vida aos seus bonecos. O que também oferece uma chance maior para Elizabeth Maclellan mostrar serviço, interpretando Elsa, a falecida esposa do titereiro. Esse papel duplo, é claro, leva ao óbvio conflito em que Toulon passa a enxergar Carolyn como a reencarnação de Elsa. Outro clichê narrativo, mas que leva a uma reviravolta interessante no final.

Essas poucas virtudes salvam o projeto de seus muitos pecados, alguns mais perceptíveis que outros. Apesar da criatividade e destreza técnicas, a precariedade da produção é sinalizada, por exemplo, pela tela manchada na tomada externa do hotel feita em matte painting, que já havia sido repetidamente utilizada no outro filme. E não posso enfatizar o suficiente o quanto a maioria dos personagens é monótona e mal escrita. O atual debate sobre cenas de sexo desnecessárias seria encerrado na hora com o momento em que Carolyn e Michael chegam aos finalmentes. Isso, depois de ficarem um bom tempo flertando como se a protagonista não tivesse acabado de ver o irmão morrer tendo a testa atravessada por um fantoche com uma broca na cabeça. Ainda assim, há um tema instigante criado pelas ações de Toulon no filme. Na cena de flashback, Elsa o incentiva a aprender os segredos do ritual oferecidos pelos misterioso mercador egípcio interpretado por Ivan Rado como uma forma de elevar sua arte. “Pense nas crianças”, ela diz, imaginando o público infantil cativado pelas fantasias que seu marido poderia trazer à vida. Mas no final, até mesmo crianças se tornam alvo de Toulon e seus fantoches, mais interessados em permanecer “vivos” do que qualquer outra coisa. A cena final conclui com uma visão ainda mais cínica e cruel do conceito de infância, reforçando a ideia da queda dos fantoches na escuridão. Ao comparar com o filme original, é a discussão dessas temáticas, além de uma presença maior dos fantoches cometendo mortes mais violentas e divertidas, que reforça a maior contradição de O Mestre dos Brinquedos 2. O primeiro é um filme superior em vários sentidos, mas esse é um filme melhor do Mestre dos Brinquedos.

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