Por Bia Malamud
O Clã (2015), de Pablo Trapero, é mais uma pérola do cinema argentino que merece ser vista. Vencedor do Leão de Prata de Melhor Direção no Festival de Veneza de 2015, o filme é baseado em uma história real que marcou época na Argentina. O sucesso internacional se deve a sua temática violenta e à atuação excelente dos atores, principalmente de Guillermo Francella, como o criminoso Arquímedes Puccio.
Célebre em seu país como comediante em séries, programas e filmes, Francella ficou conhecido internacionalmente a partir de sua atuação em O Segredo de Seus Olhos (2009), quando interpretou o personagem Pablo Sandoval. Vale lembrar que esse filme, uma verdadeira obra de arte, dirigido por Juan Jose Campanella, ganhou o Oscar de Melhor Filme Internacional em 2010.
Guillermo Francella é um dos atores argentinos mais famosos, depois de Ricardo Darín. Ele está na hilariante série Meu Querido Zelador, disponível na Disney Plus, e no engraçado filme Homo Argentum (2025), na mesma plataforma de streaming.
Voltando a O Clã (2015), nele conhecemos o frio e sinistro Arquímedes Puccio, autor de crimes que apavoraram Buenos Aires nos anos 1980. Ele envolve a família inteira em sequestros de pessoas abonadas no sofisticado bairro de San Isidro.
Arquímedes era casado com a professora Epifania Ángeles Calvo e tinham cinco filhos: Alejandro, que foi jogador de rugby da seleção argentina, Silvia, Daniel (Maguila), Guillermo e Adriana.
Aparentemente, tratava-se de uma família de classe média alta como tantas outras das cercanias, uma família que poderia ostentar um comercial de margarina. No entanto, os sequestros e assassinatos ocorriam, muitas vezes, sob esse teto onde ninguém parecia ouvir os gritos e lamentos dos reféns, e onde se rezava antes das refeições.
Ele era conhecido como O Louco da Vassoura, porque estava sempre varrendo a entrada de sua casa. Detalhe: o personagem Eliseo, da série Meu Querido Zelador também tem esse costume de varrer constantemente a entrada do prédio onde trabalha, algo inerente a sua profissão, mas que pode ser visto como uma referência a O Clã.
Durante a ditadura argentina, Puccio participou ativamente da chamada Guerra Suja e da Operação Condor, com repressão violenta aos opositores do regime. Entre 1976 e 1983, numerosos casos de sequestros para extorsão foram perpetrados, entre outras atrocidades.
O Clã tem uma filmagem não linear em termos de narração. O filme retrata a época da democratização da Argentina com a eleição do presidente Alfonsín, após a derrota do país na Guerra das Malvinas, que enfraqueceu o governo militar.
Nesse vácuo, Arquímedes acreditava ter apoio dos ainda detentores do poder. No entanto, as condições mudam com a democratização. O roteiro entrega com detalhes esta transformação e o destino inexorável desta família.
Pablo Trapero
Pablo Trapero, nascido em 1971, é um aclamado diretor, roteirista e produtor, nome importante do “Novo Cinema Argentino”. Seus filmes mostram as injustiças sociais, a burocracia e outros aspectos importantes da sociedade do país.
Foi o primeiro diretor sul-americano a receber o título de Chevalier l’Ordre des Arts et de Letres do Ministério da Cultura da França, em 2015. É casado com a atriz e produtora Martina Gusman, que protagonizou alguns de seus filmes.
Em entrevista concedida a revista Época, em 2015, Trapero falou sobre O Clã: “Por meio dessa história, podemos aprender sobre uma época em que a Argentina passava pela Guerra das Malvinas e conquistava a democracia, o que não foi muito narrado pela ficção. Retratar a transição da ditadura para a democracia foi, ao mesmo tempo, estimulante e desafiador”.
Entre os filmes de Trapero destacam-se também: Elefante Branco (2012), Abutres (2010) e 7 Dias em Havana (2012). Seu último filme &Sons foi apresentado no Festival de Cinema de Toronto em 2025, com roteiro de Sarah Polley e Bill Nighy no papel principal.
Elenco: Guillermo Francella (Arquímedes), Peter Lanzani (Alejandro), Stefania Koessl (Mónica), Lili Popovich (Epifania), Gaston Cocchiarale (Maguila), Franco Masini (Guillermo), a brasileira Giselle Motta (Silvia) e Antonia Bengoechea (Adriana).
O Clã está disponível na Disney Plus.
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Ainda não vi o filme porém gostei muito da sua análise, deixando com vontade de ver o filme – parabéns pelo artigo
Parabéns pelo artigo
Ótimo artigo! A atuação de Francella fantástica como nos outros filmes também. Um filme contextualizado na realidade de um país mesmo que de forma não tão explícita, porém para entendedores…e que não se distancia muito do Brasil.
Excelente avaliação, Flávia! Obrigada!
Parabéns pela análise!
Obrigada, Natasha!