Um folk horror competente, com bons momentos e uma premissa muito interessante, desperdiçada por um roteiro irregular
Jen, seu namorado e mais dois casais de amigos decidem fazer uma trilha nas montanhas da Virgínia. Mesmo após receberem avisos insistentes dos moradores da pequena cidade local para não se afastarem do percurso marcado, eles resolvem ignorar as recomendações e se embrenhar floresta adentro em busca de paisagens paradisíacas. Naturalmente, essa escolha imprudente se mostra fatal: o grupo acaba se deparando com algo bem mais perigoso do que simples riscos naturais.
Dirigido por Mike P. Nelson, “Pânico na Floresta: A Fundação” (Wrong Turn, 2021) foi vendido como um reboot da franquia iniciada em 2003, mas isso é, no máximo, meia verdade. Tirando o conceito básico de “jovens em apuros na floresta”, não há conexão direta com o original, nem com os elementos que tornaram a série conhecida, como as criaturas deformadas e o gore exagerado. O uso do título é claramente uma estratégia de marketing para capitalizar em cima dos fãs da franquia. Seria muito mais honesto chamá-lo simplesmente de “A Fundação”, já que, na prática, estamos diante de um filme independente, com outra proposta, outro tom e outra mitologia.
Diferentemente dos longas anteriores, este não é um slasher tradicional, embora traga ecos do gênero. A pegada aqui é de folk horror, com forte ênfase em terror psicológico, sem abrir mão de momentos de violência gráfica bem executados. A trama introduz “A Fundação”, uma comunidade isolada nas montanhas, com seus próprios códigos morais e sistema de justiça, evocando aquele tipo de horror rural em que a verdadeira ameaça é uma sociedade paralela, primitiva e ao mesmo tempo organizada. Já no início, nota-se um esforço em construir um filme “moderno”, com um grupo de protagonistas diverso em etnias, profissões e orientações sexuais, algo em sintonia com a era do “politicamente correto”, ainda que em certos momentos isso pareça mais uma obrigação de checklist do que algo orgânico.
A narrativa se divide em duas linhas principais: a primeira acompanha os jovens na floresta, desde a caminhada até os encontros cada vez mais sinistros com armadilhas e habitantes da região. Já a segunda segue Scott (Matthew Modine), o pai de Jen, que, semanas depois do desaparecimento da filha, parte em uma busca obstinada por respostas. Essa alternância dá um dinamismo interessante ao filme, criando camadas de tensão enquanto vamos descobrindo, em paralelo, o que aconteceu com o grupo e até onde um pai é capaz de ir para resgatar a filha.
O elenco entrega interpretações competentes para o tipo de proposta. Charlotte Vega, como Jen, assume o protagonismo com firmeza, especialmente no terço final, quando sua personagem é colocada diante de decisões morais extremas. Matthew Modine confere dignidade e peso dramático ao papel do pai determinado, evitando que ele caia no puro estereótipo. No grupo de amigos, atores como Adain Bradley, Emma Dumont, Dylan McTee e Adrian Favela contribuem para compor um conjunto crível, ainda que alguns personagens sejam apenas esboçados. Entre os habitantes da Fundação, Bill Sage se destaca ao dar uma aura ameaçadora e ao mesmo tempo quase “racional” ao líder da comunidade, reforçando a ambiguidade moral que o filme tenta explorar.
Tecnicamente, “Pânico na Floresta: A Fundação” é uma produção bem cuidada dentro de suas limitações. A direção de Mike P. Nelson é segura, sobretudo nas sequências de tensão e nas armadilhas na floresta, que exploram bem o cenário natural. A fotografia de Nick Junkersfeld aproveita a paisagem montanhosa com competência, contrastando a beleza bucólica do ambiente com o horror que se esconde por trás dela, e utiliza sombras e profundidade de campo para criar sensação de vulnerabilidade constante. A trilha sonora e o desenho de som ajudam a sustentar a atmosfera inquietante, com uso eficiente de ruídos da floresta, gritos distantes e sons metálicos, que potencializam a sensação de isolamento e perigo.
O roteiro, escrito por Alan B. McElroy (criador do filme original), tem boas ideias. A premissa da comunidade isolada com seus próprios valores, a discussão sobre quem são os verdadeiros vilões e a tentativa de provocar o espectador a questionar sua própria noção de civilização e barbárie são pontos fortes. Em vários momentos, o filme nos coloca numa zona moral ambígua, pedindo que a gente pense se a Fundação é apenas um culto sanguinário ou uma sociedade alternativa defendendo seu território diante de intrusos arrogantes
O problema é que a execução não acompanha todo esse potencial. Para sustentar as reviravoltas, o roteiro recorre a conveniências preguiçosas e a decisões de personagens que soam forçadas demais, comprometendo a credibilidade da história. Alguns acontecimentos parecem existir apenas para levar a trama a determinado ponto, sem que haja uma lógica interna convincente por trás deles. Além disso, há furos de roteiro difíceis de ignorar, especialmente em relação ao funcionamento da comunidade, à ausência de consequências mais amplas para certos eventos e à maneira como alguns personagens simplesmente desaparecem da narrativa ou têm seus arcos resolvidos de forma apressada.
Apesar dessas fragilidades, o filme consegue entregar bons momentos de tensão, sequências de violência bem elaboradas e um clima persistente de desconforto. Se o espectador entrar na sessão sem esperar o universo de mutantes canibais dos “Pânico na Floresta” tradicionais, e sem levar tão a sério a seriedade com que o próprio longa se enxerga, é possível se divertir e ficar envolvido com a história. O final, embora divisivo, tenta ser ousado e traz uma conclusão que, ao menos, foge do previsível.
No fim das contas, “Pânico na Floresta: A Fundação” é um folk horror competente, com bons momentos e uma premissa muito interessante, desperdiçada por um roteiro irregular que transforma o que poderia ser um filme memorável em uma experiência mediana e facilmente esquecível. Ainda assim, para fãs de folk horror, de comunidades isoladas e de narrativas que flertam com dilemas morais, vale a conferida. Porém, desde que o título “Pânico na Floresta” seja encarado mais como isca de marketing do que como continuidade de uma franquia.
E você? Já assistiu o filme? Concorda comigo?
Diz aí nos comentários.
E para mais reviews como este continue me acompanhando por aqui.
Até a próxima!
![]()


Parabéns pelo artigo meu nobre – não assisti esse filme mas gostei da sua análise