Cantora, compositora e sambista paulistana celebra 25 anos de carreira em um audiovisual que reverencia sua ancestralidade, sua trajetória artística e a força das religiões de matriz africana.
A sambista paulistana Grazzi Brasil prepara um dos projetos mais ambiciosos de sua trajetória. Intitulado “Na Gira”, o trabalho celebra seus 25 anos de carreira com o lançamento de um álbum audiovisual concebido como uma grande homenagem às tradições afro-brasileiras que moldaram sua vida e sua arte.
Com direção e produção musical de Leàndro Mattos, direção artística de Cris Casagrande e lançamento pelo selo Londu Music, o projeto que conta com as participações especiais de Sandro Luiz e Mayara Costa, será disponibilizado em duas partes nas plataformas digitais: a primeira chega ao público em 7 de julho de 2026 e a segunda em 21 de julho de 2026, data em que também será lançado o audiovisual completo (DVD) no YouTube. O show oficial de lançamento acontece no dia 17 de julho de 2026, às 20h, no Teatro João Caetano, em São Paulo, com entrada gratuita.
“Na Gira” é um manifesto artístico, espiritual e político. O projeto presta homenagem às entidades das religiões de matriz africana que atravessam a formação pessoal e musical da cantora — mulher negra oriunda da favela do Rio Pequeno, na Zona Oeste de São Paulo, que construiu uma carreira pioneira no universo do samba-enredo e da música popular brasileira.
A gravação do audiovisual propõe uma narrativa cronológica e afetiva. No palco, Grazzi canta e conta sua história: dos primeiros pontos e cantigas aprendidos nos terreiros às disputas e conquistas nos barracões do samba paulistano e carioca. A produção articula memória, ancestralidade, musicologia histórica e emoção para registrar a trajetória da primeira mulher negra a ocupar simultaneamente o posto de intérprete de escolas de samba de São Paulo e do Rio de Janeiro.
“Na Gira é o projeto mais importante da minha trajetória até aqui, porque reúne tudo o que me formou como artista e como mulher. Eu venho do samba, mas também venho do terreiro, da fé, da ancestralidade e dos ensinamentos que recebi ao longo da vida. Dividir esse trabalho entre a direita e a esquerda da gira foi uma forma de mostrar a riqueza e a complexidade da Umbanda, celebrando entidades que caminham comigo e inspiram minha música. Este projeto é um agradecimento aos meus ancestrais, aos Orixás e a todas as pessoas que fizeram parte da minha caminhada nesses 25 anos de carreira.” — Grazzi Brasil
Ao longo da carreira, Grazzi escreveu capítulos inéditos no Carnaval. Foi a primeira mulher a comandar o microfone da Vai-Vai, em 2017, e também puxou sambas na Paraíso do Tuiuti e na São Clemente, além de liderar atualmente os carros de som da Estrela do Terceiro Milênio. Sua presença rompeu barreiras históricas em um espaço tradicionalmente dominado por homens.
A artista, que começou a cantar profissionalmente aos 13 anos, participou de programas de grande audiência como Ídolos e The Voice Brasil, integrando o time de Ivete Sangalo, além de ter atuado no musical “Cartola – O Mundo é um Moinho”. Em 2024, representou o samba brasileiro no SXSW, nos Estados Unidos.
Dividido entre a direita e a esquerda da gira
O conceito do álbum foi inspirado na organização simbólica das giras de Umbanda. A primeira parte do projeto representa o chamado “povo da direita”, reunindo canções dedicadas aos Orixás, Pretos-Velhos, Marinheiros, Baianos e linhas associadas à luz, ao acolhimento, à cura e à elevação espiritual. São composições que falam de fé, proteção, ancestralidade e pertencimento, revelando a profunda conexão de Grazzi com os terreiros que ajudaram a formar sua identidade artística.
Já a segunda parte mergulha nas entidades tradicionalmente associadas ao “povo da esquerda”, como Exus, Pombagiras e Exus-Mirins. Com repertório marcado por irreverência, força, resistência e liberdade, essa etapa do álbum celebra personagens fundamentais das religiões afro-brasileiras, frequentemente incompreendidos fora dos terreiros, mas responsáveis pela abertura de caminhos, proteção e equilíbrio das energias.
Cultura como reparação histórica
“Na Gira” nasce também como resposta à invisibilidade histórica de mulheres negras do samba contemporâneo. O projeto prevê a circulação de três shows — dois de lançamento e um como contrapartida social — prioritariamente em equipamentos públicos de regiões periféricas, alcançando cerca de 20 mil pessoas.
A iniciativa deve gerar trabalho temporário para aproximadamente 40 profissionais da cadeia produtiva cultural, além de oferecer um workshop gratuito de canto e gerenciamento de carreira voltado a iniciantes no samba, incentivando autonomia artística e profissionalização.
Em um contexto de debate sobre políticas públicas culturais, o projeto dialoga diretamente com o artigo 215 da Constituição Federal, que garante o pleno exercício dos direitos culturais, e com o artigo 27 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que assegura a participação na vida cultural da comunidade.
Ao registrar em audiovisual uma trajetória construída nos terreiros, nas quadras e nas periferias, “Na Gira” coloca luz sobre manifestações afro-brasileiras como culturas de resistência e afirma o samba como patrimônio vivo, gerado e sustentado por mulheres negras que historicamente tiveram suas vozes silenciadas.
Da quadra da USP aos palcos internacionais
A trajetória de Grazzi começou ainda na infância, quando treinava basquete na quadra da Universidade de São Paulo e cantava discretamente nos intervalos. Influenciada por artistas como Jorge Ben Jor, Chico Buarque, Tim Maia e Elis Regina, estreou aos 13 anos na banda Blackzuka.
Passou por experiências como backing vocal de artistas do samba e do samba-rock, enfrentou a maternidade precoce aos 16 anos e consolidou-se como uma das vozes mais importantes do carnaval brasileiro. Gravou os álbuns Nas Cordas de um Cavaquinho (2012) e Pimenta e Tempero (2013) e prepara novos lançamentos.
Um registro necessário
Muito se fala sobre a tradição do samba paulista transmitida de geração em geração, mas raramente se documentam os movimentos populares contemporâneos protagonizados por mulheres negras nas periferias. Sem registro, esses trabalhos dificilmente alcançam circulação nacional ou reconhecimento institucional.
“Na Gira” surge como instrumento de salvaguarda da memória cultural afro-brasileira e como gesto de reparação histórica: o samba que já foi criminalizado como vadiagem agora ocupa o centro do debate cultural, com potencial de premiações e projeção nacional.
O projeto celebra uma linhagem, uma fé e uma cidade — reafirmando São Paulo como território fundamental do samba e das culturas de matriz africana.
SERVIÇO:
Show de Lançamento – Na Gira
Data: 17 de julho de 2026
Horário: 20h
Local: Teatro João Caetano – São Paulo
Ingressos: Gratuitos na bilheteria do teatro
Espaço Tânia Voss
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