Com El Niño de forte intensidade previsto para 2026, arquiteta Inaha Paz alerta: nossas casas estão preparadas para os extremos climáticos?

Meteorologia

Especialista em Neurociência aplicada à arquitetura defende que moradias precisam ser pensadas não apenas para conforto, mas também para adaptação climática, segurança emocional e bem-estar.

A confirmação da formação de um novo El Niño pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) acendeu um alerta global para os impactos climáticos dos próximos meses. Segundo a entidade, há 80% de probabilidade de o fenômeno se consolidar entre junho e agosto deste ano e mais de 90% de chance de permanência até novembro, aumentando o risco de eventos extremos como ondas de calor, alterações nos regimes de chuva e impactos sobre cidades e comunidades.

Inaha Paz é arquiteta, pesquisadora em Afroneuroarquitetura® e desenvolveu a metodologia Casa Curativa® ao longo de 16 anos atuando com projetos de arquitetura, interiores e consultorias voltadas ao bem-estar, pertencimento e justiça espacial. É pós-graduada em Neuroarquitetura e Design do Bem-Estar Humano e atualmente cursa a especialização em Neurociências e Comportamento. 

Embora as discussões normalmente se concentrem nos efeitos sobre agricultura, abastecimento de água e economia, a arquiteta e pesquisadora em Neuroarquitetura Inaha Paz chama atenção para outro aspecto frequentemente negligenciado: a capacidade das moradias de proteger a saúde física e emocional das pessoas diante das mudanças climáticas.

“Quando falamos em eventos climáticos extremos, normalmente pensamos no que acontece do lado de fora, mas depois da pele, a casa é a primeira infraestrutura de proteção que temos. Ela deveria ser capaz de reduzir o estresse térmico, proporcionar sensação de segurança e oferecer condições adequadas para o descanso e a recuperação física e emocional”, afirma.

A preocupação não é apenas teórica, estudos vêm demonstrando que características do ambiente construído e a relação pessoa-ambiente influenciam diretamente a saúde mental, a qualidade do sono, os níveis de estresse e a sensação de bem-estar. Em um cenário de temperaturas mais elevadas e maior frequência de eventos extremos, a qualidade das habitações passa a ser também uma questão de saúde pública.

Para Inaha, a arquitetura contemporânea precisa incorporar de forma mais consistente os desafios impostos pela emergência climática.

“Durante muito tempo, a arquitetura foi associada à estética ou ao valor imobiliário. Hoje, ela precisa responder a questões mais urgentes. Como manter uma casa habitável durante períodos de calor intenso? Como garantir ventilação adequada? Como criar espaços que favoreçam conforto físico e emocional em contextos de instabilidade climática? Essas perguntas já fazem parte do presente”, explica.

A especialista destaca que soluções de adaptação nem sempre dependem de grandes investimentos e que, no âmbito do projeto arquitetônico, é possível prever ventilação cruzada, proteção solar adequada, aproveitamento da iluminação natural e tomar decisões embasadas e assertivas a respeito dos materiais, para que o planejamento dos ambientes contribua na redução da sensação térmica e melhoria das condições de permanência dentro das residências.

Criadora da metodologia Casa Curativa®, Inaha defende que a discussão sobre moradia precisa ir além da infraestrutura física. Segundo ela, eventos climáticos extremos também produzem impactos emocionais, especialmente em populações mais vulneráveis. “Ao debater sobre o clima, muitas vezes torna-se invisível a dimensão psicológica da habitação. A casa é um dos principais lugares de regulação da vida cotidiana e quando ela deixa de oferecer proteção, conforto, segurança e previsibilidade, o corpo passa a conviver com um estado constante de alerta pela possibilidade de perder aquilo que foi construído ao longo da vida, o que gera desgaste contínuo. A exposição prolongada a essas situações compromete a sensação de estabilidade e bem-estar, afetando o sono, a capacidade de recuperação do estresse e até a percepção de futuro das pessoas. Em momentos de crise climática, essa sensação de instabilidade tende a se intensificar”, afirma. 

Para a arquiteta, pensar cidades resilientes passa necessariamente por pensar moradias resilientes. “A emergência climática não será enfrentada apenas com grandes obras ou tecnologias, ela também será enfrentada dentro das nossas casas e a forma como projetamos e habitamos os espaços terá um papel cada vez mais importante na saúde, no bem-estar e na capacidade de adaptação das pessoas diante das mudanças que já estão acontecendo”, compartilha. 

 

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Caroline Vilas Bôas
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