No filme “Sinédoque, Nova York”, dirigido e roteirizado pelo premiado Charlie Kaufman, Caden Cotard (Philip Seymour Hoffman) é um diretor de teatro hipocondríaco e pessimista, casado com a artista plástica Adele Lack (Catherine Keener). Os dois vivem em um casamento sem amor. O mundo desmorona para Caden quando Adele diz à terapeuta do casal Madeleine Gravis (Hope Davis) que imagina ele morto, porque assim poderá viver sua vida como deseja.
Com o casamento em crise, Caden ainda sofre outro baque quando Adele decide fazer uma viagem para Berlim, levando a filha de quatro anos do casal, Olive (Sadie Goldstein), sem convidá-lo para ir junto. O tempo passa e elas não voltam para casa. Caden vai se dando conta de que ele foi abandonado pela esposa. Ele passa a flertar com a bilheteira do teatro onde trabalha. O nome da moça é Hazel (Samantha Morton).
Hazel e Caden iniciam um romance. Hazel possui como característica sua vivacidade. Sua casa está sempre pegando fogo, o que indica seu temperamento caloroso, de acordo com a alegoria do filme. Mas Caden não esqueceu sua ex-esposa e sua filha perdida, isso atrapalha o relacionamento com Hazel. Os dois acabam se separando também.
Outro fato digno de nota é que Caden é um teatrólogo bem-sucedido. Sua última montagem foi um grande sucesso. A peça é a clássica “A Morte do Caixeiro-Viajante”, de Arthur Miller. E, por causa disso, ele recebeu um prêmio importante que custeará sua próxima peça. A bolsa McArthur. O dinheiro lhe financia a compra de um enorme galpão onde ocorrerá a montagem de sua obra-prima. Caden contrata centenas de atores e operários para construir uma réplica de Nova York no galpão. Caden, com seu enorme ego, deseja reproduzir toda a sua vida em uma nova peça. Ele contrata um ator para interpretá-lo. O ator não-profissional é Sammy Barnathan (Tom Noonan). Neste período, Caden conhece e se envolve com a atriz aspirante a estrela do teatro Claire Keen (Michelle Williams). Eles se casam e têm uma filha, que é negligenciada por Caden, porque ele ainda não esqueceu sua ex-esposa e sua outra filha. Caden vai a Berlim e reencontra Olive (Robin Weigert), sua filha já adulta. Ela está com o corpo inteiramente coberto por tatuagens, feitas pela tatuadora Maria (Jennifer Jason Leigh), que é amiga de Adele e amante de Olive.
Em Berlim, Caden adquire o hábito bizarro de se passar pela faxineira de Adele e limpar a residência de sua ex-esposa. Ele limpa seguidas vezes o apartamento de Adele. Em Nova York, Caden comanda os intermináveis ensaios de sua nova peça. Ele tem ideias novas a cada dia para nomear sua obra-prima, mas nunca está satisfeito. Ele passa a ter problemas com seu elenco, já que Sammy se apaixona e se envolve com Hazel, que é assistente de Caden. Enciumado, Caden retoma o relacionamento com Hazel, o que leva Sammy a tomar uma atitude inesperada e trágica. Neste momento, Caden já havia terminado seu casamento com Claire, por causa de sua obsessão por sua família anterior.
Passam os anos e Caden não lança sua peça. Em determinado momento do filme, Caden é chamado ao hospital para presenciar a morte de Olive, que está moribunda. Ela lhe fala que sua morte iminente é devido a uma infecção causada por suas muitas tatuagens pelo corpo. Olive falece. Caden nunca volta a encontrar Adele após ela deixá-lo para fugir com Olive para Berlim. Caden envelhece e seu mundo se torna decadente, inclusive o cenário de sua peça nunca lançada. O fim do filme é melancólico e coerente com o que foi apresentado até aqui.
Charlie Kaufman recebeu o Oscar de Melhor Roteiro Original por “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”, de 2004. Ele é um dos roteiristas de maior prestígio em Hollywood até hoje. “Sinédoque, Nova York” foi sua primeira experiência como diretor.
O filme recebeu aclamação da crítica, mas não obteve êxito nas bilheterias, ele custou US$ 20 milhões e arrecadou US$ 4,65 milhões. Ele não se pagou. Todas as críticas que li na Internet foram unânimes em considerá-lo uma obra-prima. Talvez, algum dia, uma outra geração redescubra o filme e ele receba a devida atenção que merecia quando foi lançado. Filme imperdível para cinéfilos em geral. Pelo que deu para perceber, o drama psicológico “Sinédoque, Nova York” bebeu bastante nos contos, novelas, e romances do escritor expressionista tcheco Franz Kafka e na literatura pós-moderna. Percebe-se a influência pós-moderna no roteiro do filme. Kaufman é sem dúvida um dos roteiristas mais literários de Hollywood. Aguardemos por seus próximos trabalhos.
Segundo uma pesquisa no Google, “sinédoque é uma figura de linguagem que troca uma palavra por outra com base na diferença de tamanho ou quantidade entre elas. Em vez de usar o nome exato, usa-se a parte pelo todo, o singular pelo plural, ou o gênero pela espécie”.
O filme tem ainda no elenco os atores Emily Watson, Diane Wiest, Josh Pais, Daniel London, Jerry Adler, Peter Friedman, Paul Sparks, Charles Techman, Robert Seay, Lynn Cohen, John Rothman, Amy Wright, Stephen Adly Guirgis, Deirdre O’Connel, Michael Higgins etc.
O filme está disponível na plataforma de filmes cult MUBI e no YouTube.
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