Em “Na Rua”, Maurílio de Sousa Jr. acompanha personagem que escolhe permanecer nas ruas e usa a literatura para discutir liberdade, ruptura com a vida convencional e os caminhos que podem se tornar difíceis de percorrer de volta
Há escolhas que parecem incompreensíveis para quem olha de fora. Abandonar uma vida estruturada, afastar-se das obrigações, romper com a rotina e escolher permanecer nas ruas pode parecer apenas uma sequência de perdas. Mas o que acontece quando, para quem vive essa experiência, esse caminho passa a fazer sentido?
É a partir dessa tensão que “Na Rua”, romance de Maurílio de Sousa Jr., constrói a trajetória de Alcebíades, personagem que rompe com a vida convencional e estabelece uma relação cada vez mais profunda com o álcool e com a vida nas ruas. Em sua segunda edição, a obra volta a provocar uma discussão sobre liberdade, escolha, dependência, identidade e os limites entre abandonar um caminho e já não conseguir retornar a ele.
A própria apresentação da obra a define como algo que vai além de um relato sobre alcoolismo, ao tratar a trajetória de Alcebíades como uma espécie de “filosofia marginal” e uma renúncia consciente à normalidade. A história acompanha o personagem, já há anos vivendo nas ruas, enquanto ele narra sua trajetória a um companheiro de calçada.
Quando permanecer também é uma escolha
Alcebíades não é construído apenas como alguém que perdeu o controle da própria vida. O personagem faz escolhas. E, em determinado momento, escolhe permanecer no caminho que encontrou.
Para Maurílio, o álcool passa a cumprir uma função dentro dessa decisão: permite ao personagem viver de uma determinada maneira e escapar das exigências impostas pela vida convencional.
“Ele prefere o caminho da loucura, não um outro caminho. Na vida, a gente pode fazer vários caminhos, e ele escolhe estar sempre louco porque ali tudo se resolve. Você não é obrigado a batalhar para sobreviver porque o álcool resolve tudo”, explica o autor.
A afirmação desloca a discussão do julgamento sobre o comportamento do personagem para uma pergunta mais incômoda: o que uma pessoa está escolhendo quando escolhe permanecer em uma determinada forma de existência?
No universo de Alcebíades, o álcool não aparece apenas como elemento de degradação. Ele também funciona como uma espécie de mecanismo que permite ao personagem sustentar a vida que escolheu. A bebida não elimina os problemas, mas altera a maneira como ele se relaciona com eles.
É justamente essa contradição que interessa ao romance.
A realidade também pode ser difícil de enfrentar
A relação do personagem com a sobriedade acrescenta outra camada à discussão.
Segundo Maurílio, sua experiência com pessoas que passaram por períodos prolongados de consumo de álcool também o levou a observar o que acontece quando a bebida deixa de cumprir a função que ocupava naquele cotidiano.
“Quando elas ficam sóbrias, como eu vi, para elas é terrível, porque vem toda a realidade de uma forma brutal”, relata.
No romance, essa percepção ajuda a questionar uma ideia aparentemente simples: a de que bastaria abandonar o álcool para que a pessoa pudesse retornar à vida anterior.
Para Alcebíades, porém, não existe necessariamente uma volta simples ao ponto de partida.
Quanto mais longe, mais difícil voltar
A trajetória do personagem também é marcada pelo acúmulo de rupturas.
Uma escolha leva a outra. A permanência nas ruas modifica sua relação com trabalho, rotina, obrigações e responsabilidades. Aos poucos, o personagem se distancia das regras que organizavam sua vida anterior e constrói outras formas de existência.
É nesse processo que a fronteira entre escolha e aprisionamento começa a ficar menos evidente.
“Chega uma hora em que a pessoa ultrapassou tantas fronteiras que não é mais possível voltar ao mundo como a gente conhece, de obrigações, rotinas, de desafios”, afirma Maurílio.
A questão é central para a trajetória do personagem porque o retorno não depende apenas de querer voltar. Depois de atravessar sucessivas fronteiras, ele já não é a mesma pessoa que deixou aquela vida para trás.
O que a sociedade chama de escolha?
A trajetória de Alcebíades também provoca uma reflexão sobre a maneira como a sociedade interpreta comportamentos que fogem do padrão.
Existe uma tendência de observar alguém que vive nas ruas ou enfrenta uma relação problemática com o álcool a partir de uma posição externa, buscando rapidamente uma explicação ou uma solução. O romance, porém, propõe permanecer mais tempo dentro da experiência do personagem.
O que parece irracional para quem observa pode ter uma lógica para quem vive aquela realidade.
Essa perspectiva não significa transformar as escolhas de Alcebíades em modelo ou negar as consequências de suas decisões. A literatura faz outro movimento: tenta compreender como uma sequência de escolhas pode construir uma realidade própria, até que aquilo que antes parecia uma possibilidade passe a ser a única forma de vida que o personagem reconhece como possível.
É nessa zona de conflito que “Na Rua” encontra sua principal questão: somos livres para escolher nossos caminhos quando as escolhas anteriores já transformaram profundamente as possibilidades que temos diante de nós?
A rua como ruptura, não apenas como cenário
Na narrativa, a rua não funciona apenas como espaço físico. Ela representa uma ruptura com um modelo de vida baseado em trabalho, rotina, obrigações e expectativas sociais.
Alcebíades encontra nesse universo uma espécie de liberdade que não existia na vida anterior, ao mesmo tempo em que essa liberdade cobra um preço.
A contradição atravessa o personagem: quanto mais ele se liberta das regras que organizavam sua existência, mais distante fica das condições necessárias para retornar a elas.
É justamente por isso que o romance evita uma divisão simples entre vítima e culpado, liberdade e prisão, escolha e consequência.
Uma segunda edição para uma discussão que permanece
Publicado originalmente em 2022 e agora em segunda edição, “Na Rua” mantém como eixo a trajetória de Alcebíades e sua relação com o álcool, a rua e a própria identidade.
Para Maurílio, a literatura permite abordar essas questões sem reduzi-las a explicações prontas. Em vez de oferecer uma resposta sobre por que alguém escolhe determinado caminho, o romance acompanha o personagem enquanto ele constrói esse caminho e enfrenta as consequências de permanecer nele.
Com formação em Sociologia, o autor utiliza a ficção para observar relações humanas e comportamentos que frequentemente são analisados apenas de fora. A trajetória de Alcebíades, nesse sentido, funciona como uma provocação ao leitor: até onde vai nossa liberdade de escolher uma vida diferente e em que momento nossas próprias escolhas passam a limitar as possibilidades futuras?
Sobre o autor
Maurílio de Sousa Jr. é escritor e mestre em Sociologia. Em Na Rua, constrói a trajetória de Alcebíades, personagem que rompe com a vida convencional e passa a viver nas ruas, estabelecendo uma relação complexa com o álcool, a liberdade e a própria identidade.
Fonte disponível para entrevistas sobre: literatura e relações humanas; comportamento e sociedade; alcoolismo a partir da perspectiva literária; população em situação de rua; liberdade e escolhas individuais; construção de personagens; Sociologia e literatura.
Serviço
Livro: Na Rua
Autor: Maurílio de Sousa Jr.
Edição: segunda edição
Editora: Editora Essencial
Formato: livro físico
Onde encontrar: o livro está disponível para compra diretamente no site da Editora Essencial.
Comprar “Na Rua” na Editora Essencial
![]()
