Mulher negra não precisa apenas faturar: precisa construir patrimônio, explica especialista Abidjan Rosa

Economia Negócios

Especialista em negócios liderados por mulheres negras defende que crescimento empresarial precisa ser acompanhado por estratégia de remuneração, reinvestimento e construção de patrimônio

Falar sobre empreendedorismo feminino negro no Brasil também significa falar sobre dinheiro, acesso e construção de patrimônio. Para além de colocar um negócio em funcionamento ou aumentar o faturamento, mulheres negras precisam construir estruturas que permitam transformar o resultado do trabalho em segurança financeira, ativos e possibilidades de crescimento no longo prazo. A discussão ganha relevância diante das desigualdades de renda que ainda marcam a trajetória econômica dessa população.

Dados do Ipea mostram que, em 2022, a renda média das pessoas brancas era 87% maior que a das pessoas negras no Brasil. Na comparação entre grupos, a maior distância estava entre mulheres negras e homens brancos: os homens brancos viviam em domicílios cuja renda por pessoa era o dobro daquela das mulheres negras e suas famílias.

Empresária, estrategista de negócios, palestrante e especialista na construção e expansão de negócios liderados por mulheres negras, Abidjan Rosa (https://www.instagram.com/abidjanrosa/)  defende que essa realidade precisa entrar na conversa sobre empreendedorismo. Criadora do Movimento Topázio e da Rhiza Mastermind, ela desenvolveu uma metodologia própria baseada em cinco pilares: posicionamento, ecossistema de faturamento, funis, ambiência e desfrute. Em seu trabalho, incorpora a leitura social aos negócios para considerar como raça, gênero, território, acesso e percepção social atravessam a construção de autoridade e o desenvolvimento empresarial.

“O faturamento é uma parte importante do negócio, mas ele não conta sozinho a história de uma empresária. É preciso perguntar o que acontece com esse dinheiro depois que ele entra. Quanto fica para a empreendedora? Quanto é reinvestido? Quanto é destinado à construção de segurança e patrimônio? Se todo o resultado do trabalho volta para manter a operação funcionando, a empresa pode até crescer, mas a empresária continua sem construir riqueza”, explica Abidjan.

A diferença de renda também aparece entre empreendedores. Segundo levantamento do Sebrae baseado em dados de 2020 e 2021, o rendimento médio mensal de empreendedoras negras era de R$ 1.539, enquanto o de empreendedoras brancas chegava a R$ 2.305. O mesmo estudo aponta que mulheres negras representavam 47% das empreendedoras e que raça e gênero funcionavam como barreiras adicionais no ambiente empreendedor.

Para Abidjan, por isso, a discussão sobre crescimento precisa avançar para além de metas de faturamento. A empresária defende que empreendedoras acompanhem indicadores como margem, remuneração própria, capacidade de reinvestimento e diversificação das fontes de receita, construindo um ecossistema de faturamento que não dependa de uma única oferta ou de uma única fase do negócio.

“Quando uma mulher negra consegue aumentar o faturamento, isso é uma conquista. Mas precisamos ir além da celebração do quanto ela vende. Precisamos falar sobre quanto ela consegue acumular, quais ativos consegue construir, quais oportunidades consegue acessar e que tipo de liberdade esse negócio passa a proporcionar. Patrimônio também é uma forma de ampliar poder de decisão”, afirma.

A necessidade de olhar para essa dimensão econômica está relacionada a desigualdades que começam antes mesmo do empreendedorismo. O Sebrae aponta que mulheres negras donas de negócio enfrentam maiores dificuldades de acesso a crédito e que seus negócios tendem a ter menor porte e operar, em grande parte, sem empregados. Em levantamento citado pela instituição, empresárias negras tiveram empréstimos negados em proporção 50% maior que empreendedoras brancas.

Nesse contexto, Abidjan defende que construir patrimônio exige uma mudança na forma como mulheres negras são incentivadas a pensar seus negócios. Em vez de trabalhar apenas para manter a empresa funcionando ou aumentar o faturamento mês a mês, a estratégia precisa considerar o negócio como uma ferramenta de desenvolvimento econômico pessoal e coletivo.

“O objetivo não deveria ser apenas criar um negócio que paga as contas. Precisamos pensar em negócios capazes de gerar remuneração, oportunidades, empregos, investimentos e patrimônio. Quando uma empresária consegue fazer isso, ela muda não apenas a própria trajetória, mas também amplia as possibilidades para as pessoas que estão ao redor dela”, completa.

A discussão faz parte do trabalho desenvolvido por Abidjan com empresárias negras por meio do Movimento Topázio e da Rhiza Mastermind. 

Sobre Abidjan Rosa

Abidjan Rosa é empresária, estrategista de negócios, palestrante e especialista na construção e expansão de negócios liderados por mulheres negras. Formada em Serviço Social, construiu sua trajetória entre políticas sociais, gestão pública, empreendedorismo, educação, posicionamento e desenvolvimento de negócios. Em 2020, deixou a carreira pública para empreender e, desde então, desenvolveu um ecossistema de negócios, produtos, eventos e comunidades voltados ao desenvolvimento econômico de mulheres negras. É criadora do Movimento Topázio, idealizadora do Negócios & Desfrute e está à frente da Rhiza Mastermind, voltada ao desenvolvimento e à expansão de empresárias negras. Como palestrante, aborda temas como empreendedorismo feminino e negro, posicionamento, influência, monetização do conhecimento, ecossistemas de faturamento, desenvolvimento econômico e construção de patrimônio.

Loading

Compartilhe nosso artigo

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *