Ezra Pound foi um homem cindido. Nele, viviam tanto um altruísmo digno de aplausos e elogios, quanto uma ideologia abjeta e amoral, merecedora do escárnio de qualquer ser humano com um mínimo de bom senso. Pound foi um poeta norte-americano modernista que viveu a maior parte da vida na Europa, leia-se Inglaterra, França e Itália. O poeta nutria uma paixão avassaladora pela terra de Dante Alighieri e Maquiavel.
Foi na França da primeira metade do século XX que conheceu e ajudou vários escritores em início de carreira e ainda desconhecidos do grande público. Vários escritores da geração perdida e do modernismo devem sua notoriedade ao poeta estadunidense. Sem Pound, grandes autores como Ernest Hemingway, William Carlos Williams, T.S. Eliot e James Joyce não seriam quem são no mundo de hoje.
Um caso que chama bastante atenção é o da relação do poeta com Joyce. Quando ninguém acreditava no talento do escritor irlandês, Pound se manteve determinado em lhe conseguir, não só ser publicado e reconhecido, mas também um mecenas que o possibilitasse continuar a escrever sem se preocupar com compromissos financeiros. A mecenas, que bancou Joyce e sua mulher Nora e filhos até o fim da vida do escritor, se chamava Harriet Shaw Weaver. Ela foi a responsável pelo espólio de Joyce e enviava regularmente os pagamentos dos direitos autorais da obra do escritor à família deste. De fato, toda a ajuda que Pound prometeu ao genial autor do “Ulisses”, ele conseguiu realizar.
Foi Pound quem apresentou Joyce a Sylvia Beach, a primeira editora do “Ulisses”, que foi lançado em 1922. Sylvia possuía em Paris uma livraria bastante influente chamada Shakespeare & Company. A livraria era ponto de encontro de vários escritores da geração perdida, entre eles Hemingway, Zelda e F. Scott Fitzgerald e Gertrude Stein.
Pound e Joyce se afastaram após a mudança do poeta estadunidense para Rapallo, na Itália. Eles não voltaram a se encontrar. Talvez por ingenuidade ou má-fé mesmo, Pound acabou se influenciando pelas ideias fascistas de Benito Mussolini. Ele se aproximou dos ideais fascistas durante a Segunda Guerra Mundial. Pound adotou o antissemitismo publicamente, divulgando-o em jornais e programas de rádio da época.
O poeta colaborou ativamente com o regime do ditador italiano, a quem ele conheceu pessoalmente. Ele foi responsável por tentar convencer os Estados Unidos a não entrarem na guerra, manobra na qual não obteve sucesso.
Após o fim da guerra, em 1945, os aliados o prenderam, foi acusado de colaborar com o eixo. Foi detido em Pisa, em uma cela para prisioneiros de guerra. Permaneceu na prisão em Pisa por 6 meses. Foi enviado aos EUA para ser julgado. Os norte-americanos o queriam fuzilar por ser um traidor, mas escapou por pouco da pena capital.
Em seguida, foi julgado insano e confinado no manicômio por doze anos. O nome da instituição era Hospício St. Elizabeth, em Washington. Ao ser libertado, por pressão de admiradores de sua grandiosa obra poética, voltou à Itália e viveu em Veneza com a filha até sua morte em 1972.
Ezra Weston Loomis Pound, ou Ezra Pound, é hoje considerado um clássico da poesia do século XX e um dos mais importantes poetas do modernismo. A literatura deve muito a ele, não só por sua obra, mas por ele ter descoberto vários escritores hoje consagrados do cânone da prosa e poesia universais.
Suas indiscrições ideológicas prejudicaram sua vida pessoal, mas seu legado e obra permaneceram intactos e imunes a seus próprios vícios pessoais. Como o homem dividido que foi, tanto suas boas ações permaneceram, quanto seus vícios também permaneceram no imaginário de leitores, críticos e estudiosos da literatura.
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