Análise do filme No Tempo das Diligências – 1939

Critica de Filmes

Lançado em 1939, No Tempo das Diligências (Stagecoach) é frequentemente citado como o filme que redefiniu o faroeste e o elevou de um gênero considerado “menor” para o patamar de arte cinematográfica. Dirigido por John Ford e estrelado por John Wayne, o longa marcou uma ruptura estética e narrativa que influenciaria gerações de cineastas.
John Ford já havia dirigido inúmeros filmes mudos e alguns sonoros, mas ainda não tinha realizado a obra que consolidaria seu nome como autor. O faroeste, por sua vez, era dominado por produções baratas e enredos simplificados. Ford enxergou no roteiro de Dudley Nichols, baseado no conto Stage to Lordsburg de Ernest Haycox, uma oportunidade de elevar o gênero.
Para o elenco, Ford tomou uma decisão ousada: entregar o papel do pistoleiro Ringo Kid a um ator jovem, pouco conhecido, e que vinha de filmes de baixo orçamento. A estratégia se provou visionária. O plano-sequência que apresenta Wayne, com a famosa panorâmica que se aproxima de seu rosto enquanto ele gira o rifle, se tornou uma das entradas mais icônicas da história do cinema e lançou o ator ao estrelato.
O roteiro, baseado no conto Stage to Lordsburg de Ernest Haycox, funciona quase como um microcosmo da sociedade americana da época, cada passageiro representa um tipo social, a prostituta marginalizada Dallas, o médico alcoólatra Boone, o banqueiro corrupto Gatewood, a mulher grávida de um oficial Lucy Mallory, o jogador elegante Hatfield e outros. A chegada do fora-da-lei Ringo Kid, interpretado por John Wayne em um papel que o transformou em estrela, acrescenta humanidade e heroísmo à jornada.
A dinâmica entre esses personagens cria uma crítica social sutil, porém consistente. Ford trabalha temas como hipocrisia moral, solidariedade, injustiça e redenção, levando o público a questionar os verdadeiros valores de cada figura.
Um dos grandes trunfos de No Tempo das Diligências é sua fotografia. Foi o primeiro filme de Ford a utilizar Monument Valley, região localizada na fronteira entre Utah e Arizona, que se tornaria símbolo visual do faroeste clássico. As vastas paisagens desérticas amplificam a sensação de isolamento e perigo, além de se tornarem parte essencial da mitologia do cinema americano.
A forma como Ford filma a ação também influenciou profundamente o gênero. As cenas de ataque indígena à diligência, coreografadas por Yakima Canutt, são consideradas revolucionárias pela composição e pelo dinamismo, estabelecendo padrões seguidos até hoje.
Apesar de frequentemente associado à glorificação do Oeste, Stagecoach oferece uma leitura mais complexa. A sociedade representada no filme julga Dallas por sua reputação — enquanto o banqueiro, símbolo da “boa sociedade”, é o verdadeiro criminoso. Ford expõe a moralidade seletiva e coloca os marginalizados como figuras de maior dignidade.
Outro tema marcante é o da comunidade improvisada: pessoas com histórias e valores distintos que precisam cooperar para sobreviver. É um retrato simbólico da própria formação dos Estados Unidos.
O impacto de No Tempo das Diligências é imenso:
Revitalizou o faroeste, estabelecendo-o como um gênero adulto e artístico.
Consagrou John Ford, que se tornaria um dos diretores mais importantes da história.
Lançou John Wayne ao estrelato, definindo sua persona de cowboy heroico.
Inspirou cineastas como Orson Welles, que estudou o filme quadro a quadro antes de rodar Cidadão Kane.
No Tempo das Diligências é mais do que um marco do faroeste: é um marco do cinema mundial. Com personagens complexos, direção inovadora, paisagens icônicas e um olhar crítico sobre a sociedade americana, o filme permanece vivo, relevante e admirado por cinéfilos, pesquisadores e amantes do gênero. É um daqueles raros filmes que transcendem seu tempo e continuam a redefinir o imaginário do que é o “Oeste” no cinema.
Ficha Técnica

  • Título Original: Stagecoach
  • Ano: 1939
  • Direção: John Ford
  • Roteiro: Dudley Nichols (baseado no conto “The Stage to Lordsburg” de Ernest Haycox)
  • Elenco Principal: John Wayne, Claire Trevor, Thomas Mitchell, Andy Devine, John Carradine, Louise Platt, George Bancroft, Donald Meek, Berton Churchill, Tim Holt
  • Gênero: Faroeste, Aventura
  • Duração: 96 minutos (1h 36min)
  • Cor: Preto e Branco
  • Nacionalidade: EUA (Estados Unidos)
  • Produção: John Ford (não creditado)
  • Prêmios: Vencedor do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante (Thomas Mitchell) e Melhor Trilha Sonora.

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89 thoughts on “Análise do filme No Tempo das Diligências – 1939

  1. Ótima análise! Você conseguiu mostrar como no Tempo das Diligências, vai além do faroeste comum, trazendo crítica social, personagens profundos e uma direção que marcou a história do cinema seu Ricardo. Comentário claro e muito enriquecedor!”

  2. Novamente Ricardo usando sua pena, discorre com precisão e talento esse artigo sobre o clássico No Tempos Das Diligências. Parabéns neu Nobre..

  3. Texto sublime!
    Outro destaque que nunca esqueço é o time de dublês. As cenas nos cavalos é sem sobra de dúvidas umas das melhores cenas de dublê da história

  4. Excelente artigo! Ótima sinopse e ótima análise do filme!
    Este filme é um marco, assisti quando era adolescente e ainda descubro nuances novas quando o assisto novamente.
    Parabéns, meu amigo, pela excelente matéria.

  5. Parabéns Ricardo, gostei muito da sua análise! Você explica de um jeito fácil de entender por que No Tempo das Diligências é tão importante para o cinema. Dá pra ver o cuidado e o conhecimento no que você escreve. Continue firme, porque você tem muito talento pra isso! 🙌

  6. Este é um dos grandes faroeste de todos os tempos com direção de um dos melhores diretores de western o grande john Ford,e a mágica interpretação do maior cowboy de todos os tempos john wayne.

  7. Ricardo eu já te falei, você e fera nos comentarios, tenho certeza que logo logo iremos ver você comentando o Oscar. só te desejo o melhor meu brother.

  8. Incrível análise! No Tempo das Diligências é um marco do cinema americano que redefiniu o faroeste. A direção de John Ford é genial, e a escolha de John Wayne foi um acerto. O filme trabalha temas como hipocrisia moral e redenção, com uma crítica social sutil. A fotografia em Monument Valley é icônica, e a atuação do elenco é excelente. Influenciou gerações de cineastas e continua relevante hoje. Um clássico que vale a pena assistir!

  9. Parabéns meu nobre, uma excelente análise. Quero assistir esse clássico western 1939, com certeza é uma interessante obra épica cinematográfica.

  10. Nací en el mismo año, 1962, y es un honor haber coincidido con el nacimiento de una de las formas de culto (el western que impacta y hace pensar críticamente) en la moderna cinematografía. Caro amigo virtual, es un placer leer su critica con criterio, información y estilo claro.

  11. Bom dia Ricardo, você escreveu sobre o filme No Tempo das Diligências (Stagecoach) é excelente e bastante abrangente. O texto é bem fundamentado, claro e capta com precisão os pontos cruciais que fizeram da obra de John Ford um marco na história do cinema…. Parabéns 🙏

  12. Realmente um grande clássico do cinema, que está entre meus preferidos de todos os tempos, e uma apuradíssima análise, Ricardo. Parabéns, mais uma vez!

  13. Muito boa sua análise sobre o Filme: No Tempo das Diligências, a mesma foi bem informativa, agora todo filme que tínhamos como ator o Jonh Wayne era tudo de bom. Meus parabéns Freitas.

  14. Mais um clássico muito bom! Análise muito boa! Realmente a fotografia do filme é muito boa! A construção dos personagens até o final mostrando pespequitivas diferente de cada um! Excelente!!!!!

  15. Putz ta ai o lendário john Wayne. Com suas análises temos mais clareza e compreensão. Passamos a ter mais emoções durante do filme parabéns Ricardo

  16. Eu compro a dupla Wayne/Ford como Depp)Burton e DeNiro/Scorcese.
    Ford é um dos cineastas fundamentais do cinema. Só uma pergunta: Esse é o 1⁰ filme a ter o Monumental Valley como cenário?

  17. Gostei da sugestão de filme. Não tinha assistido ainda.
    Achei interessante também como ele aborda a figura da mulher na sociedade, a partir dos três elementos presentes: a bela e frágil, grávida do soldado; a marginalizada, mas que teve a atitude necessária,que o médico não estava tendo, porque estava bêbado; e a “selvagem”, que, para o espanto dos presentes, era casada com um homem branco do vilarejo.

  18. Mais uma vez uma bela análise do Ricardo esse queria ter assistido com meu avô, ele adorava filmes de “Coboy” como ele dizia. Parabéns Ricardo

  19. Parabéns pela análise cirúrgica deste excelente filme com uma ótima direção e um marco do faroeste clássico, além de um filme consagrado de John Wayne.
    Muito bom!

  20. No Tempo das Diligências (1939) elevou o faroeste ao patamar de arte. John Ford usa a jornada da diligência como retrato moral da sociedade americana, com personagens complexos e crítica à hipocrisia social.

  21. Rastros de Ódio é considerado um dos maiores westerns da história do cinema e uma das obras mais complexas de John Ford. Lançado em 1956 e estrelado por John Wayne, o filme vai muito além da narrativa clássica de vingança ou resgate, oferecendo uma profunda reflexão sobre ódio, racismo, obsessão e pertencimento.

  22. Foi também um caso interessante em que o roteirista Dudley Nichols recusou o Oscar de roteiro adaptado.
    Interessante em ver que o que aparenta não é em relação a pessoas.
    Um baita clássico de Ford e o início de uma das grandes parecerias entre Ford e Wayne.

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