Marcelo Kricheldorf
O Macmahonismo representa um dos episódios mais fascinantes e radicais da cinefilia francesa. Surgido nos anos 1950, este movimento não foi apenas uma escola de crítica, mas uma postura ética e estética diante da imagem.
O termo deriva do Cinéma Mac-Mahon, uma sala de cinema localizada perto do Arco do Triunfo, em Paris. Lá, um grupo de jovens críticos (os “macmahonistas”), liderados por figuras como Michel Mourlet e Pierre Rissient, cultuava um cinema baseado na presença física e no rigor da “miseen-scène”. Sua bíblia era a revista Cahiers du Cinéma, embora tenham fundado posteriormente sua própria publicação, a Présence du Cinéma.
Enquanto a Nouvelle Vague (liderada por Godard e Truffaut) buscava romper com as estruturas narrativas e experimentava com a montagem, os macmahonistas eram mais conservadores na forma, porém mais radicais na adoração ao classicismo. Eles compartilhavam o culto ao autor, mas divergiam na escolha dos mestres: enquanto os “jovens turcos” dos Cahiers amavam Hitchcock, os macmahonistas preferiam o gesto puro de Raoul Walsh ou Lang.
O macmahonismo foi a apoteose da cinefilia pelo cinema de Hollywood. Para eles, o cinema americano não era apenas entretenimento, mas a forma mais elevada de arte devido à sua economia narrativa e clareza visual. Eles estabeleceram o famoso “quadrado sagrado” de diretores: Raoul Walsh, Fritz Lang, Otto Preminger Joseph Losey.
A estética macmahonista baseia-se na “miseen-scène” como uma evidência. Para este grupo, a beleza de um filme residia na organização dos corpos no espaço e na clareza do olhar.
Defendiam uma cor funcional e dramática, como a vista nos melodramas de Douglas Sirk ou nos filmes de aventura de Walsh.
Rejeitavam o simbolismo pesado e o intelectualismo. Acreditavam que o sentido de um filme deveria emanar diretamente da ação física e da presença dos atores.
O crítico macmahonista atuava como um “descobridor de deuses”. Michel Mourlet chegou a afirmar que “o cinema é um olhar que se substitui ao nosso para nos dar um mundo de acordo com os nossos desejos”. Eles viam uma forte ligação com a literatura clássica (Stendhal, por exemplo), buscando uma prosa visual que fosse direta, precisa e desprovida de adornos desnecessários.
O movimento foi uma resistência ao “cinema de qualidade” francês (excessivamente literário e teatral) e ao cinema comercial sem alma. Ao elevar diretores de “filmes de gênero” ao status de filósofos da imagem, eles desafiaram as hierarquias culturais da época. Era uma resistência contra a intelectualização que esquecia a força primitiva e erótica da imagem cinematográfica.
O legado do macmahonismo sobrevive na valorização da miseen-scène clássica. Diretores contemporâneos que priorizam a clareza espacial e a economia de planos devem algo a essa escola. A ideia de que “a técnica deve ser invisível para que a emoção seja absoluta” continua sendo um pilar para cineastas que buscam a elegância através da simplicidade.
![]()


Um Belo Artigo.
Parabéns e obrigado pela aula.