A Importância da Revista Francesa Cahiers Du Cinéma para a História do Cinema e sua Política dos Autores.

Cinema

🎬🎥

Marcelo Kricheldorf

A revista nasceu em Paris, em abril de 1951, fundada por André Bazin, Jacques Doniol-Valcroze e Joseph-Marie Lo Duca. Surgindo no vácuo da Revue du Cinéma, ela se tornou o ponto de encontro de uma geração de cinéfilos que passavam os dias na Cinemateca Francesa.
Inicialmente, sob a influência humanista e teórica de Bazin, a revista focava na ontologia da imagem cinematográfica e no realismo. No entanto, ao longo da década de 1950, uma nova guarda de redatores — os “Jovens Turcos” (Truffaut, Godard, Rohmer, Rivette e Chabrol) — assumiu o protagonismo, transformando a revista em um panfleto combativo contra o cinema tradicional e acadêmico da época.
O marco zero dessa mudança foi o artigo de François Truffaut, “Uma certa tendência do cinema francês” (1954). Nele, ele atacava o “Cinema de Qualidade” — filmes franceses de alto orçamento baseados em roteiros literários, mas sem alma visual.
A Politique des Auteurs (Política dos Autores) defendia que o diretor não é apenas um técnico que ilustra um roteiro, mas o verdadeiro “autor” do filme.
Para a Cahiers, a autoria se expressava através da mise-en-scène (encenação). O modo como a câmera se move, o uso da luz e o ritmo da montagem eram tão importantes quanto o diálogo. Isso permitiu que diretores de Hollywood, antes vistos como meros empregados de estúdio (como Alfred Hitchcock e Howard Hawks), fossem elevados ao status de gênios artísticos.
A relação entre a revista e o movimento Nouvelle Vague (Nova Onda) é intrínseca: a revista foi a teoria, o movimento foi a prática. Cansados de apenas criticar, os redatores da Cahiers pegaram câmeras e foram para as ruas.
Filmes como Os Incompreendidos (1959) e Acossado (1960) aplicaram os conceitos discutidos na revista: liberdade narrativa, baixo orçamento, uso de luz natural e, acima de tudo, a visão subjetiva do autor acima das regras da indústria.
A Cahiers mudou a linguagem da crítica. Ela deixou de ser um guia de “assista ou não” para se tornar uma análise estética e filosófica.
Antes da revista, o cinema era visto majoritariamente como entretenimento de massa ou extensão do teatro. A Cahiers estabeleceu que o cinema possui uma linguagem própria e uma dignidade artística equivalente à literatura ou à pintura.
A revista criticava a padronização industrial que sufocava a criatividade. Ao valorizar o “estilo pessoal”, ela incentivou a resistência de cineastas contra as imposições comerciais dos grandes estúdios.
Embora o início da revista fosse predominantemente masculino, o conceito de autoria abriu caminhos para a Crítica Feminista do Cinema. Ao focar na subjetividade do diretor, teóricas posteriores puderam analisar como o gênero influencia a visão de mundo projetada na tela, resgatando obras de pioneiras como Agnès Varda (contemporânea da Nouvelle Vague) e Ida Lupino.
O legado da revista é visível em festivais como Cannes e na valorização contemporânea do cinema independente. A ideia de que compramos um ingresso para ver “um filme de [Nome do Diretor]” é uma herança direta dos debates travados nas salas da Cahiers nos anos 50.

Loading

Compartilhe nosso artigo

4 thoughts on “A Importância da Revista Francesa Cahiers Du Cinéma para a História do Cinema e sua Política dos Autores.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *