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Marcelo Kricheldorf
A obra de Gilles Deleuze (1925 – 1995) sobre o cinema, consolidada nos volumes A Imagem-Movimento e A Imagem-Tempo, não representa apenas uma análise estética, mas uma refundação da filosofia através da imagem. Para Deleuze, o cinema não é um objeto de estudo para a filosofia, mas uma prática pensante por si só. Abaixo, apresento uma análise detalhada sobre a importância vital desse filósofo para a sétima arte e o pensamento contemporâneo.
A entrada de Gilles Deleuze na teoria cinematográfica na década de 1980 marcou uma ruptura com as análises vigentes, que tentavam compreender o filme através da linguística ou da psicanálise. Deleuze propôs algo radical: o cinema não é uma linguagem que comunica uma história, mas uma composição de matéria-sinal que produz pensamento no tempo e no espaço.
No primeiro estágio de sua teoria, Deleuze identifica a Imagem – Movimento, característica do cinema clássico. Nela, o cinema opera sob o “esquema sensório-motor”: as imagens são encadeadas de forma que cada ação gera uma reação lógica, movendo a narrativa adiante. O tempo, nesse modelo, é subordinado ao movimento; ele é a medida do que acontece. A influência de Deleuze aqui foi categorizar como a montagem e o enquadramento (especialmente em diretores como Hitchcock e Eisenstein) criaram uma percepção do mundo baseada na causalidade e na finalidade da ação.
No entanto, Deleuze observa que a Segunda Guerra Mundial provocou uma fratura nessa percepção. O mundo tornou-se “intolerável” e as situações tornaram-se complexas demais para reações motoras simples. É aqui que surge a crise da imagem-movimento, abrindo espaço para a modernidade cinematográfica.
A transição para a Imagem-Tempo é, talvez, a maior contribuição de Deleuze. Com o Neorrealismo Italiano e a Nouvelle Vague francesa, o cinema deixa de focar no “fazer” para focar no “ver”. Cineastas como Jean-Luc Godard e Alain Resnais criaram personagens que não agem mais sobre o mundo, mas que deambulam por ele como espectadores da própria existência.
Nesse regime, o tempo surge em seu estado puro, não mais linear. O passado, o presente e o futuro coexistem em “cristais de tempo”. Deleuze utiliza a obra de Resnais e a de Tarkovsky para demonstrar como o cinema pode explorar a memória e o pensamento sem as amarras da cronologia. Essa mudança influenciou profundamente a crítica cinematográfica, que passou a valorizar o plano-sequência, o silêncio e o vazio como potências expressivas, e não como defeitos narrativos.
Na teoria de Gilles Deleuze, o Devir e a Estética do Experimentalismo são pilares que rompem com a ideia de que a arte deve representar a realidade. Em vez de copiar o mundo, a arte deve criar novas formas de existir.
No cinema, isso se traduz na capacidade da imagem de não apenas representar uma coisa, mas de se tornar outra. O cinema experimental e de vanguarda personifica essa ideia ao desterritorializar a visão humana. Ao invés de um olhar antropocêntrico, o cinema permite um “devir-animal”, “devir-máquina” ou “devir-molecular”, onde a luz, a granulação da película e o ritmo da montagem criam sensações que escapam à racionalidade comum. O cinema torna-se, portanto, um laboratório de novas formas de vida e de sensibilidade.
O legado de Deleuze na Filosofia do Cinema é a compreensão de que a imagem cinematográfica é um “bloco de sensações”. Ele influenciou a análise da Cultura Visual contemporânea ao prever como as imagens digitais e a fragmentação da mídia operariam de forma não-linear. Para a crítica moderna, Deleuze forneceu o vocabulário para descrever filmes que não querem “explicar” nada, mas sim fazer o espectador “sentir” o tempo e a existência.
Em última análise, Deleuze elevou o cinema ao status de disciplina filosófica. Ele nos ensinou que o cinema não serve para nos distrair da realidade, mas para nos devolver a crença em um mundo que muitas vezes parece ter perdido o sentido.
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Parabéns pelo artigo meu nobre ficou show de bola
Muito necessário este estudo sobre a imagem-movimento; imagem-tempo. Parabens pela matéria!