Marcelo Kricheldorf
Lançado em 1974, em um contexto de desilusão pós-Guerra do Vietnã e crise do petróleo, O Massacre da Serra Elétrica, dirigido por Tobe Hooper, é frequentemente reduzido ao gênero slasher. No entanto, uma análise profunda revela um tratado sociopolítico sobre as entranhas da América moderna. Através da representação visceral do canibalismo, o filme opera como uma crítica radical à sociedade de consumo, à desumanização e às falhas estruturais do capitalismo e do patriarcado.
No filme, o canibalismo não é apenas um fetiche de horror, mas a representação máxima da lógica predatória do capitalismo. A família de Leatherface, composta por ex-trabalhadores de um matadouro que foram substituídos pela automação industrial, transpõe as técnicas de abate de gado para seres humanos. Aqui, o canibalismo simboliza uma sociedade que “devora a si mesma”. O consumo deixa de ser uma atividade econômica para se tornar um ato biológico literal: o ser humano é reduzido a proteína, uma mercadoria descartável em um mercado de sobrevivência brutal.
A desumanização é o motor estético do filme. As vítimas não são vistas pelos antagonistas como indivíduos, mas como “carne”. Isso é materializado na cenografia macabra: móveis feitos de ossos, dentes e peles humanas. Essa objetificação extrema reflete a visão da Teoria Crítica (como a Escola de Frankfurt), que aponta como o sistema industrial transforma sujeitos em objetos. O famoso “gancho de carne” é o símbolo máximo dessa redução: o corpo humano perde sua aura de sagrado para se tornar um produto em uma linha de montagem de horror.
O filme subverte o ideal da “família tradicional”. A unidade familiar dos vilões é estritamente masculina e patriarcal, onde a autoridade é exercida através da violência e da exploração do mais fraco (Leatherface). Essa estrutura mimetiza a toxicidade de um sistema que exige produtividade a qualquer custo. O colapso econômico da família, causado pela modernização industrial, mostra o lado obscuro do “sonho americano”: quando o sistema descarta o trabalhador, ele se torna um monstro alimentado pelas sobras do próprio sistema que o criou.
A alienação é onipresente Leatherface, ao usar máscaras de pele humana, demonstra a perda de sua identidade própria — ele é apenas a função que exerce. Além disso, o filme faz uma crítica sutil à mídia e à cultura popular ao iniciar com um letreiro que afirma ser uma “história real”. Essa manipulação narrativa critica a sede do público por sensacionalismo e a forma como a violência real é consumida como entretenimento pela cultura de massa, transformando a tragédia em espetáculo rentável.
Diferente de filmes de terror contemporâneos que apostam no gore visual, o horror de Hooper é psicológico e atmosférico. A violência é seca, feia e desprovida de glamour, alinhando-se à ideia de que a civilização é apenas uma fina camada de verniz sobre a barbárie. Sob a ótica da Teoria Crítica, o filme expõe a “dialética do esclarecimento”: o progresso técnico (a serra elétrica, o matadouro industrial) não trouxe a libertação, mas sim meios mais eficientes para a crueldade e a dominação.
O legado de O Massacre da Serra Elétrica reside em sua capacidade de permanecer atual. Ele influenciou a cultura popular não apenas pela iconografia de Leatherface, mas por estabelecer o horror como um espelho deformador da sociedade. Ao conectar o ato de comer carne humana ao funcionamento de uma economia de exploração, o filme deixa um aviso sombrio: em uma sociedade que valoriza o consumo acima da vida, todos somos, em última instância, carne para o moedor. O filme não é apenas sobre um assassino com uma serra; é sobre o horror de um sistema que nos ensinou a ver o próximo como um recurso a ser explorado.
![]()


Interessante a contextualização da época Marcelo. Unha tinha feito essa analogia. Muito bom.