Análise do Filme: Os Bons Companheiros

Critica de Filmes

A Anatomia do Crime: Estética e Moralidade.

Marcelo Kricheldorf

Lançado em 1990, “Os Bons Companheiros” (Goodfellas) não é apenas um filme sobre a máfia; é um estudo cinético e visceral sobre o sonho americano distorcido. Baseado no livro Wiseguy, de Nicholas Pileggi, Martin Scorsese utiliza a história real de Henry Hill para desconstruir o romantismo operístico de obras como O Poderoso Chefão, substituindo a honra familiar pela ganância individualista e pela paranoia.
A estrutura do filme é centrada na perspectiva de Henry Hill (Ray Liotta), um “outsider” que, por não ser inteiramente italiano, nunca poderá ser um membro “feito”, mas que dedica sua vida à periferia do poder. A narrativa é dividida em três atos distintos: a sedução da juventude, o apogeu da riqueza nos anos 70 e a decadência frenética e movida a cocaína dos anos 80. O filme utiliza a narração em voice-over de forma magistral, transformando o espectador em um cúmplice que entende — e quase deseja — o estilo de vida regado a privilégios e violência.
O estilo de Scorsese em Goodfellas é definido pela velocidade e pela imersão. A cinematografia de Michael Ballhaus, aliada à montagem rítmica de Thelma Schoonmaker, cria um senso de urgência constante. O famoso plano-sequência da entrada no clube Copacabana é uma peça de gramática visual que explica, sem palavras, por que Henry escolheu aquela vida: portas se abrem, mesas são colocadas na frente e o mundo se curva ao seu redor. Scorsese utiliza técnicas do cinema moderno e influências do neorrealismo italiano para criar uma atmosfera que é, ao mesmo tempo, estilizada e documental.
Um dos pontos mais fortes do filme é o retrato da máfia como uma extensão do bairro. A vida dos gângsteres está entrelaçada com jantares familiares, fofocas de vizinhança e a rotina doméstica. Scorsese, conhecedor profundo da cultura ítalo-americana, mostra que a máfia não era apenas um sindicato do crime, mas uma estrutura social que oferecia identidade e ordem em bairros operários. A lealdade, no entanto, é revelada como uma fachada; o código de silêncio é mantido pelo medo, não pelo respeito mútuo.
O elenco entrega atuações que fogem do estereótipo. Enquanto Robert De Niro traz uma ameaça calculada como Jimmy Conway, Joe Pesci personifica o perigo imprevisível do crime em sua performance como Tommy DeVito. A violência em Goodfellas é súbita e banal — um assassinato pode ocorrer entre piadas em um bar. Essa brutalidade serve para lembrar ao público que a “boa vida” de Henry é sustentada por uma psicopatia latente.
A relação entre a máfia e a sociedade é de exploração parasitária. Henry Hill descreve os trabalhadores comuns como “otários” que aceitam a mediocridade, enquanto os “bons companheiros” tomam o que querem. Contudo, o clímax do filme revela a fragilidade dessa identidade: quando o dinheiro acaba e a pressão do FBI aumenta, a fraternidade se dissolve em traição. Henry termina o filme não como um herói trágico, mas como um “homem comum”, o que, para ele, é o pior dos destinos.
A recepção crítica e comercial consolidou Scorsese como o cronista definitivo da experiência ítalo-americana no crime. O filme influenciou drasticamente a televisão e o cinema, sendo a base estética para obras como The Sopranos. Mais do que uma história de crime, Os Bons Companheiros permanece como um aviso sobre o custo da amoralidade e um triunfo técnico da sétima arte.

Ficha Técnica de “Os Bons Companheiros” (1990)

  • Título original: Goodfellas
  • Direção: Martin Scorsese
  • Roteiristas: Nicholas Pileggi e Martin Scorsese (baseado no livro “Wiseguy” de Nicholas Pileggi)
  • Elenco principal:
  • Robert De Niro como James Conway
  • Ray Liotta como Henry Hill
  • Joe Pesci como Tommy DeVito
  • Lorraine Bracco como Karen Hill
  • Paul Sorvino como Paul Cicero
  • Gênero: Crime, Drama
  • Duração: 145 minutos (2 horas e 25 minutos)
  • País de origem: Estados Unidos
  • Idioma: Inglês

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1 thought on “Análise do Filme: Os Bons Companheiros

  1. Scorcese realizou um dos seus melhores trabalhos sobre os gangsters mostrando como criminosos elegantes e desfilando em Carrões exercem um fascínio nos jovens. Pesci fez seu papel mais contundente personificando o gangster q mata como quem bebe um drink.
    Uma história de amizade e traição bem contada pelo sempre bom Martin Scorcese

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