Marcelo Kricheldorf
Steven Spielberg não é apenas um dos diretores mais comercialmente bem-sucedidos da história; ele é o arquiteto de uma mitologia moderna que utiliza o cinema para processar as dores e as maravilhas da experiência humana. Sua obra é definida por uma dicotomia constante: de um lado, o deslumbre absoluto do olhar infantil; de outro, o doloroso processo de amadurecimento provocado pela realidade. Para entender Spielberg, é necessário compreender que sua câmera não apenas filma uma história, ela tenta curar as feridas de uma criança que cresceu sob a sombra do divórcio e da busca por pertencimento.
A base da cinematografia de Spielberg reside em sua própria biografia. Criado em um ambiente de classe média americana, o jovem Steven encontrou no cinema uma fuga para a solidão e para a instabilidade emocional causada pela separação dos pais. Essa influência é evidente no papel central que a imaginação desempenha em seus filmes iniciais. Em obras como Contatos Imediatos do Terceiro Grau e E.T. – O Extraterrestre, o elemento fantástico não é o antagonista, mas um aliado da criança contra o mundo adulto racional e, muitas vezes, frio. O “olhar infantil” em Spielberg é uma escolha técnica e estética: o uso frequente de ângulos baixos (contra-plongée) coloca o espectador na altura de uma criança, transformando o mundo em um lugar de proporções épicas e mistérios insondáveis.
À medida que a carreira de Spielberg progrediu, seu estilo cinematográfico passou por uma metamorfose que espelha o próprio envelhecimento do homem por trás da câmera. O otimismo desenfreado dos anos 70 e 80 deu lugar a uma exploração mais sombria da condição humana. O processo de amadurecimento de sua obra é marcado pela transição do “monstro ou alienígena maravilhoso” para os “monstros reais” da história humana.
Em Império do Sol, vemos a transição definitiva: uma criança que ama aviões é forçada a sobreviver em um campo de concentração, perdendo sua inocência em meio à guerra. Esse filme serve como um divisor de águas, onde a fantasia não consegue mais proteger o protagonista da brutalidade do mundo. A partir daí, Spielberg começa a dialogar com o público adulto de forma mais direta, culminando na sobriedade de A Lista de Schindler e O Resgate do Soldado Ryan, onde a maestria técnica é usada para retratar o trauma coletivo e o sacrifício.
A família é o núcleo gravitacional de Spielberg. A figura do pai ausente ou emocionalmente distante é uma constante — desde o pai que abandona a família em E.T. até a busca pelo pai em Indiana Jones e a Última Cruzada. No entanto, o amadurecimento final do diretor manifestou-se em Os Fabelmans (2022). Nesta obra autobiográfica, ele utiliza a nostalgia não como um filtro cor-de-rosa, mas como uma ferramenta de autópsia emocional, perdoando os pais e reconhecendo que eles eram indivíduos falhos, e não apenas arquétipos. A educação rígida e o despertar artístico são apresentados como os pilares que permitiram que ele transformasse sua dor em narrativa universal.
A contribuição de Steven Spielberg para o cinema reside na sua capacidade de manter viva a chama da curiosidade infantil enquanto enfrenta as complexidades da vida adulta. Ele educou gerações a olhar para as estrelas com esperança, mas também a olhar para o passado com responsabilidade. Seu estilo evoluiu da pirotecnia visual para uma narrativa de profunda ressonância humanista. Ao final, o cinema de Spielberg nos ensina que amadurecer não significa abandonar a criança interior, mas sim dar a ela as ferramentas necessárias — a arte e a empatia — para compreender e suportar a realidade.
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