Análise do Filme: Fanny & Alexander (1982)

Critica de Filmes

Fanny e Alexander”: O Testamento Cinematográfico de Ingmar Bergman🎬🎥
⭐⭐⭐⭐⭐

Marcelo Kricheldorf

“Fanny e Alexander”, o aclamado filme de Ingmar Bergman, transcende a mera narrativa para se estabelecer como uma obra-prima de profundidade psicológica e visual. Muitas vezes considerado o testamento artístico do diretor, o filme é um épico íntimo que encapsula os temas recorrentes de sua vasta carreira: a complexidade da infância, os conflitos entre fé e opressão, e o poder redentor da arte. A obra, originalmente uma minissérie televisiva de cinco horas, condensa a vida em uma Suécia do início do século XX, tecendo uma tapeçaria rica em detalhes, emoções e simbolismo.
A narrativa segue a vida dos irmãos Alexander e Fanny Ekdahl. Inicialmente, a vida deles é um espetáculo de alegria e opulência, centrada no clã Ekdahl — uma família de artistas do teatro, matriarcas fortes e tios boêmios. A morte prematura do patriarca, Oscar, no entanto, introduz a sombra da mortalidade e da mudança. A mãe, Emilie, busca refúgio na estabilidade oferecida pelo bispo Edvard Vergérus, um homem austero e severo. A transição da casa Ekdahl, cheia de cor e vida, para a reitoria espartana do bispo é a virada dramática central. Este novo ambiente é um purgatório de regras rígidas e punições, onde a imaginação vibrante de Alexander é vista como uma ameaça. A luta das crianças para escapar do controle tirânico do padrasto é o motor da trama, culminando em uma fuga audaciosa e mística.
A Infância é mostrada como um campo de batalha entre a realidade e a magia
Bergman utiliza a infância como a lente principal para explorar a realidade. Para Alexander, o mundo é um lugar onde fantasmas se manifestam, estátuas ganham vida e a magia do teatro se infiltra no cotidiano.
A inocência é rapidamente perdida quando as crianças se deparam com a hipocrisia e a crueldade do mundo adulto. O filme captura a perspectiva infantil que oscila entre aterrorizantes pesadelos e a segurança do lar.
“Fanny e Alexander” é profundamente enraizado nas memórias de Bergman sobre sua própria infância em Uppsala. A obra exala uma nostalgia pela segurança de um passado que, embora idealizado, é reconhecido como complexo e imperfeito.
A adolescência de Alexander é acelerada pelo trauma. Ele aprende que a imaginação, a mentira e a arte são ferramentas vitais de resistência contra a opressão.
Família, Sociedade e o Conflito de Ideologias
O filme estabelece um confronto direto entre duas visões de mundo opostas.
O clã Ekdahl representa a burguesia liberal, calorosa e permissiva. A matriarca, Lydia Ekdahl, preside sobre um reino de aceitação, onde o teatro, os banquetes e as paixões humanas são celebrados. É um microcosmo de vida em pleno vigor.
O bispo Vergérus encarna a rigidez moral, a disciplina luterana e a repressão emocional da sociedade sueca da época. Ele é a lei e a ordem sem misericórdia.
O conflito entre essas esferas não é apenas familiar, mas ideológico: a colisão entre a vitalidade dionisíaca da arte e a repressão apolínea da religião dogmática.
O teatro é o coração pulsante da família Ekdahl e o próprio Bergman presta homenagem à sua arte.
A vida dos Ekdahl é uma performance contínua. O teatro não é apenas entretenimento, mas um espaço sagrado onde a verdade pode ser dita através da fantasia.
O “outro mundo” de Isak Jacobi, o agiota e místico amigo da família, onde Alexander e Fanny encontram refúgio, é um espaço de pura magia e criatividade, desafiando as leis da realidade.
O filme conclui que a arte (ou o “pequeno mundo” do teatro, como dito no epílogo) é um refúgio necessário e um espelho da própria vida, oferecendo consolo e significado.
A mortalidade e a espiritualidade permeiam a narrativa, longe da visão niilista de filmes anteriores de Bergman.
A morte de Oscar Ekdahl é tratada com sensibilidade, introduzindo o luto como uma presença constante, mas não esmagadora. A presença dos fantasmas sugere que a morte é apenas mais uma forma de existência.
A religião opressiva do bispo é contrastada com a espiritualidade mística, quase judaica e pagã, de Isak Jacobi. A “fé” de Bergman aqui é complexa, mais inclinada ao mistério do que ao dogma.
O filme sugere que a morte e a religião são reinos da existência humana que só podem ser compreendidos através do mistério e da aceitação, não através do controle ou da repressão.
A estética de “Fanny e Alexander” é uma das mais ricas da história do cinema, graças à colaboração de Bergman com o diretor de fotografia Sven Nykvist, vencedor do Oscar pelo trabalho.
O filme utiliza uma estrutura de conto de fadas, dividido em atos e pontuado por um narrador, o que reforça seu caráter de fábula moral e épico familiar.
Nykvist emprega uma paleta de cores exuberante. A casa dos Ekdahl é iluminada com vermelhos profundos, dourados e luz quente, evocando conforto e paixão. A casa do bispo, por outro lado, é dominada por cinzas, brancos e azuis frios, usando uma iluminação dura e minimalista para criar uma sensação de aprisionamento claustrofóbico. Cada plano é meticulosamente composto para refletir o estado emocional e o ambiente moral da cena.
Em suma, “Fanny e Alexander” é uma celebração da vida em toda a sua glória e horror, um adeus agridoce de um mestre do cinema que, ao revisitar sua própria infância, nos oferece uma obra de arte universal e atemporal.

Ficha Técnica de “Fanny & Alexander” (1982)

  • Título original: Fanny och Alexander
  • Direção: Ingmar Bergman
  • Roteiristas: Ingmar Bergman
  • Elenco principal:
  • Bertil Guve como Alexander Ekdahl
  • Pernilla Allwin como Fanny Ekdahl
  • Ewa Fröling como Emelie Ekdahl
  • Gunn Wållgren como Helena Ekdahl
  • Gênero: Drama, Fantasia
  • Duração: 3 horas e 12 minutos (188 minutos)
  • País de origem: Suécia
  • Idioma: Sueco
  • Oscar:Venceu nas categorias de melhor filme estrangeiro, melhor fotografia, melhor guarda-roupa e melhor direcção de arte.

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