Marcelo Kricheldorf
Lançado em 1960, o filme Psicose não é apenas uma obra cinematográfica; é um divisor de águas na história da arte moderna. Sob a direção magistral de Alfred Hitchcock e inspirado no romance homônimo de Robert Bloch, o longa-metragem desafiou as convenções de Hollywood, subverteu as expectativas do público e estabeleceu uma nova linguagem para o suspense e o terror psicológico. Ao explorar as profundezas da mente humana e a fragilidade da identidade, Hitchcock criou um monumento estético que ressoa até os dias atuais.
A estrutura narrativa de Psicose é um dos seus aspectos mais revolucionários. O roteiro, adaptado por Joseph Stefano a partir do livro de Robert Bloch, utiliza a técnica do “Iscos e Trocas” (Red Herring). Inicialmente, o público é levado a acreditar que está assistindo a um drama de crime focado em Marion Crane e o roubo de 40 mil dólares. No entanto, Hitchcock executa um golpe de mestre ao assassinar a protagonista no primeiro terço do filme. Essa quebra de protocolo não apenas chocou a audiência da época, mas transferiu o peso emocional do filme para o Bates Motel, transformando uma fuga policial em uma descida ao inferno psicológico.
Alfred Hitchcock utilizou Psicose para provar que a técnica poderia superar o orçamento. Filmado com a equipe de sua série de TV para reduzir custos, o diretor utilizou o preto e branco para acentuar o contraste e evitar que o sangue parecesse excessivamente gráfico para a censura. Sua direção é um estudo sobre voyeurismo e controle. Através da montagem rítmica — especialmente na icônica cena do chuveiro, que contém mais de 70 cortes em menos de um minuto — Hitchcock manipula a ansiedade do espectador, forçando-o a completar visualmente a violência que nunca é mostrada explicitamente.
O tema central de Psicose é a fragmentação da identidade. Norman Bates é a personificação da “Dupla Personalidade”. O conflito entre o filho reprimido e a projeção psicótica de sua mãe falecida explora o conceito freudiano do Id, Ego e Superego. A casa vitoriana no topo da colina simboliza o Superego — a mãe vigilante e punitiva —, enquanto o Motel representa o Ego, a fachada de normalidade que Norman tenta manter. A atuação de Anthony Perkins é crucial aqui; ele traz uma fragilidade e uma timidez que tornam a revelação final tragicamente perturbadora, distanciando-se do estereótipo do vilão comum.
Hitchcock utiliza o simbolismo para reforçar a patologia de seus personagens. A taxidermia é uma metáfora poderosa: assim como os pássaros empalhados que decoram o escritório de Norman, ele mesmo é um receptáculo vazio, preenchido pela personalidade de outra pessoa. O pântano onde os carros são escondidos representa o inconsciente, o lugar onde os segredos e os crimes são enterrados, mas que sempre ameaçam emergir. Até a água, presente na chuva inicial e no chuveiro, atua como um agente de “limpeza” que ironicamente conduz à morte e à revelação.
Psicose mudou a forma como o cinema trata a morte e a violência. Antes dele, o horror era frequentemente associado a monstros sobrenaturais. Hitchcock trouxe o terror para dentro de casa, para o cotidiano, sugerindo que o perigo pode estar em um rosto amigável em um motel de beira de estrada. O medo em Psicose é psicológico e persistente, amplificado pela trilha sonora estridente de cordas de Bernard Herrmann, que se tornou o som universal do pânico.
Em suma, Psicose é um estudo sobre a sombra humana. Através da interpretação irretocável de Anthony Perkins e da visão técnica de Hitchcock, o filme transcendeu o gênero slasher que ele mesmo ajudou a fundar. Ele permanece como um lembrete de que os monstros mais assustadores não são aqueles que se escondem debaixo da cama, mas aqueles que habitam as fendas de uma mente partida.
Ficha Técnica de “Psicose” (1960)
- Título original: Psycho
- Direção: Alfred Hitchcock
- Roteiristas: Joseph Stefano, baseado no romance “Psycho” de Robert Bloch
- Elenco principal:
- Anthony Perkins como Norman Bates
- Janet Leigh como Marion Crane
- Vera Miles como Lila Crane
- John Gavin como Sam Loomis
- Martin Balsam como Detetive Milton Arbogast
- Gênero: Terror, Suspense
- Duração: 1h 49min (109 minutos)
- País de origem: Estados Unidos
- Idioma: Inglês
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