Análise do Filme: Rede de Intrigas (1976)

Critica de Filmes

Marcelo Kricheldorf

Lançado em 1976, “Rede de Intrigas” (Network), dirigido por Sidney Lumet e roteirizado por Paddy Chayefsky, ultrapassou a barreira do cinema para se tornar um manifesto sociológico. Em uma época em que a televisão consolidava sua hegemonia nos lares americanos, o filme emergiu não apenas como uma sátira, mas como uma profecia sombria sobre a desumanização das comunicações e a transformação da notícia em mercadoria.
A trama se inicia com o declínio de Howard Beale (Peter Finch), um âncora veterano da rede UBS que, ao ser notificado de sua demissão por baixa audiência, sofre um colapso nervoso ao vivo e anuncia que se matará no programa seguinte. O que deveria ser uma tragédia ética torna-se o estopim para uma revolução comercial. Ao perceber que o desespero de Beale atrai o público, a produtora ambiciosa Diana Christensen (Faye Dunaway) decide explorar a sanidade mental do jornalista, transformando-o em um “profeta enraivecido das ondas de rádio”. Beale passa a ser um veículo para a fúria coletiva da população, culminando no icônico mantra “I’m as mad as hell, and I’m not going to take this anymore!”.
O filme disseca a transição do jornalismo de serviço público para o jornalismo de entretenimento corporativo. A luta pelo poder é personificada no contraste entre Max Schumacher (William Holden), o diretor de notícias da “velha guarda” que preza pela integridade, e Diana Christensen, a personificação da nova televisão: fria, movida por números e desprovida de empatia. Para Diana e para o conglomerado CCA (que compra a emissora), a verdade é irrelevante; o que importa é o “share” de audiência. Essa dinâmica ilustra como grandes corporações podem cooptar o descontentamento social para gerar lucro, transformando até a rebeldia em um produto rentável.
A crítica de Lumet e Chayefsky estende-se ao público. A sociedade é retratada como uma massa passiva e alienada que, em vez de se mobilizar para mudanças reais, contenta-se em gritar nas janelas por sugestão de um televisor. A desumanização atinge seu ápice na relação pessoal de Max e Diana; ela é incapaz de sentir emoções reais que não estejam ligadas a roteiros ou índices de sucesso, evidenciando como a mediação tecnológica das relações humanas pode atrofiando a sensibilidade individual.
A atuação de Peter Finch é, sem dúvida, o pilar emocional do filme. Sua transição de um homem derrotado para um messias maníaco é executada com uma urgência física quase insuportável, o que lhe rendeu o primeiro Oscar póstumo de Melhor Ator da história. Complementando as atuações (que renderam também Oscars a Dunaway e Beatrice Straight), a direção de Sidney Lumet é cirúrgica. Lumet utiliza uma iluminação que se torna progressivamente mais artificial e “televisiva” conforme o filme avança, mergulhando o espectador no ambiente estéril dos estúdios.
Nascido no vácuo de descrença deixado pelo escândalo de Watergate e pela Guerra do Vietnã, “Rede de Intrigas” capturou o cinismo dos anos 70. No entanto, sua verdadeira força reside na precisão com que previu o futuro. O filme antecipou o surgimento dos reality shows, a era da pós-verdade e a cultura do espetáculo, onde o valor de uma informação é medido pelo seu potencial de choque e engajamento, não pela sua veracidade.
“Rede de Intrigas” permanece como uma obra fundamental para entender a modernidade. Ele nos avisa que, quando a dor e a loucura se tornam entretenimento, a sociedade perde sua bússola moral. Quase cinquenta anos depois, em um mundo dominado por algoritmos e redes sociais que monetizam a indignação, o grito de Howard Beale ecoa mais forte do que nunca, lembrando-nos de que a televisão — e agora a internet — não é a realidade, mas sim uma “oficina de ilusões” que exige um olhar crítico e vigilante.

Ficha Técnica de “Rede de Intrigas” (1976)

  • Título original: Network
  • Direção: Sidney Lumet
  • Roteirista: Paddy Chayefsky
  • Elenco principal:
  • Faye Dunaway como Diana Christensen
  • William Holden como Max Schumacher
  • Peter Finch como Howard Beale
  • Robert Duvall como Frank Hackett
  • Wesley Addy como Nelson Chaney
  • Gênero: Comédia, Drama
  • Duração: 1h 58min (118 minutos)
  • País de origem: Estados Unidos
  • Idioma: Inglês
  • Prêmios:
  • 4 Oscars, incluindo Melhor Ator (Peter Finch) e Melhor Atriz (Faye Dunaway)

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