Marcelo Kricheldorf
Lançado em 1995, Seven: Os Sete Pecados Capitais transcendeu a etiqueta de “filme policial” para se tornar um estudo antropológico sobre o niilismo e a moralidade no fim do século XX. Sob a direção meticulosa de David Fincher e o roteiro sombrio de Andrew Kevin Walker, a obra utiliza o gênero neo-noir como um bisturi para dissecar a podridão de uma sociedade desumanizada.
A trama é estruturada como uma contagem regressiva de sete dias. Acompanhamos o veterano detetive William Somerset (Morgan Freeman), um homem exaurido pela apatia do mundo, e seu novo parceiro, o jovem e impetuoso David Mills (Brad Pitt). Eles são lançados em uma caçada a um assassino serial que não busca apenas matar, mas “pregar”: John Doe (Kevin Spacey) utiliza os sete pecados capitais — Gula, Avareza, Preguiça, Luxúria, Orgulho, Inveja e Ira — como base para execuções grotescas e altamente simbólicas. O roteiro evita o clichê da perseguição frenética, optando por um ritmo de investigação literária, onde cada cena de crime é uma “instalação artística” de horror que confronta a negligência humana.
O filme brilha na construção de seus protagonistas. Somerset é o intelectual resignado; ele lê Dante e Milton para entender a mente do assassino, simbolizando a sabedoria que leva ao isolamento. Mills, por outro lado, é a personificação da ação e do otimismo emocional, acreditando que pode fazer a diferença. Essa dinâmica é posta à prova por John Doe, um vilão que subverte a figura do “louco”. Doe é lúcido, metódico e profundamente religioso em sua distorção moral. Ele não se vê como um criminoso, mas como um mártir que pune a sociedade pela sua indiferença. No clímax, a relação entre o bem e o mal é borrada: ao forçar Mills a cometer o pecado da Ira, Doe prova seu ponto de que ninguém é verdadeiramente inocente ou está acima da corrupção.
A atmosfera de Seven é um personagem à parte. A cidade nunca é nomeada, o que confere ao filme uma qualidade universal e mítica — poderia ser qualquer metrópole à beira do abismo. A cinematografia de Darius Khondji utiliza o processo de bleach bypass, resultando em negros profundos e cores saturadas que evocam uma sensação de sujeira e opressão. Chove incessantemente, simbolizando uma tentativa fracassada de lavar os pecados daquela terra. Essa estética “suja” influenciou profundamente a cultura popular, estabelecendo o padrão visual para thrillers de terror e suspense que viriam a seguir.
O filme é profundamente enraizado na literatura clássica. Referências a Os Contos da Cantuária de Chaucer e A Divina Comédia de Dante Alighieri não são apenas acessórios; elas fornecem a base teológica para os crimes de Doe. Através dessas citações, Fincher discute a decadência social: a ideia de que a humanidade se tornou tão acostumada com a transgressão que apenas o horror absoluto pode despertá-la de seu torpor. A busca pela justiça torna-se uma tarefa inglória, pois, no universo de Seven, a justiça é uma construção frágil diante de um mal que é, essencialmente, filosófico.
Embora tecnicamente seja um thriller, Seven flerta constantemente com o cinema de terror corporal (body horror). A violência, curiosamente, é mais sugerida do que mostrada — o impacto vem da reação dos personagens e da imaginação do espectador diante das descrições das autópsias. O legado do filme é imenso, desde o seu final niilista — um dos mais audaciosos da história de Hollywood — até sua influência direta em obras como Jogos Mortais e a série True Detective.
Em última análise, Seven permanece relevante porque não oferece respostas fáceis ou redenção. O filme encerra com a famosa citação de Hemingway feita por Somerset: “O mundo é um bom lugar e vale a pena lutar por ele”, apenas para o detetive acrescentar: “Eu concordo com a segunda parte”. É uma obra que nos obriga a olhar para o abismo, lembrando-nos que, em uma sociedade apática, a indiferença pode ser o mais mortal de todos os pecados.
Ficha Técnica de “Seven” (1995)
- Título original: Se7en
- Direção: David Fincher
- Roteiristas: Andrew Kevin Walker
- Elenco principal:
- Morgan Freeman como Detetive William Somerset
- Brad Pitt como Detetive David Mills
- Gwyneth Paltrow como Tracy Mills
- Kevin Spacey como John Doe
- R. Lee Ermey como Capitão de Polícia
- Gênero: Suspense, Crime, Terror
- Duração: 127 minutos
- País de origem: Estados Unidos
- Idioma: Inglês
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