Marcelo Kricheldorf
O Tropicalismo não foi apenas um movimento musical, mas uma ruptura cultural profunda que redefiniu a identidade brasileira no final da década de 1960. No cinema, essa influência manifestou-se como uma resposta estética e política à crise das utopias e ao endurecimento da ditadura militar. Ao fundir o arcaico e o moderno, o “fino” e o “cafona”, o cinema tropicalista transformou a representação do Brasil, criando uma linguagem que assimila influências estrangeiras para retratar uma imagem visceral da realidade nacional.
A gênese do Tropicalismo cinematográfico está intrinsecamente ligada à evolução do Cinema Novo. Se a primeira fase desse movimento focava no sertão e na estética da fome com um tom didático, a terceira fase; influenciada pelo lançamento de Terra em Transe (1967) de Glauber Rocha — abriu alas para a alegoria tropicalista. O movimento surgiu sob a égide da Antropofagia de Oswald de Andrade: a ideia de que o Brasil deveria devorar a cultura colonizadora (o pop americano, o rock, a tecnologia) e assimilá-la de forma crítica, sem perder sua essência.
Diferente do realismo seco de anos anteriores, a estética tropicalista no cinema abraçou o excesso. O uso do kitsch e do mau gosto deliberado servia como uma ferramenta de choque. Filmes como Macunaíma (1969), de Joaquim Pedro de Andrade, personificam essa transição ao utilizar cores vibrantes, elementos da chanchada e o humor ácido. Essa abordagem estava alinhada à contracultura global, mas com um tempero local: o desbunde, a liberdade sexual e a experimentação psicodélica eram formas de resistência contra o conservadorismo da época.
A relação entre o som e a imagem é um dos pilares do gênero. A música não era apenas trilha, mas parte integrante da narrativa. O cinema apropriou-se da estrutura das canções de Caetano Veloso e Gilberto Gil — repletas de colagens e fragmentos — para construir montagens descontínuas. Além disso, houve uma reabilitação da cultura popular marginalizada. O rádio, o brega e o folclore foram elevados ao status de arte, desafiando a distinção entre a alta cultura e a cultura de massa.
A crítica social tropicalista era menos direta que a do cinema militante tradicional, mas talvez mais perturbadora. Através da alegoria, o cinema expunha um país de contrastes violentos: o Brasil que constrói Brasília, mas mantém o coronelismo; o Brasil que ouve Beatles, mas vive a repressão das autoridades. A identidade nacional era representada como uma construção em constante conflito, um “país em transe” que não conseguia resolver suas contradições internas.
A herança tropicalista permanece como um dos pilares mais sólidos da produção audiovisual brasileira. No cinema contemporâneo, essa influência é visível na recusa ao naturalismo estrito e na busca por uma linguagem híbrida que transita entre o documentário e a performance. Cineastas de gerações posteriores, como os do movimento Pernambucano (claro herdeiro do Manguebeat, que por sua vez bebeu do Tropicalismo), continuam a utilizar a ironia e a mistura de gêneros para discutir o Brasil nos tempos atuais.
Por fim, a influência do Tropicalismo no cinema brasileiro foi o que permitiu à nossa cinematografia sair de um nacionalismo ingênuo para uma modernidade crítica. Ao aceitar que somos uma mistura de influências diversas, o cinema tropicalista ensinou que a verdadeira identidade nacional reside justamente na nossa capacidade de processar o caos, transformando o subdesenvolvimento em potência estética e política.
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