O Banquete da Redenção: Arte, Fé e Humanidade
⭐⭐⭐⭐⭐
O filme “A Festa de Babette” (1987), dirigido por Gabriel Axel e baseado no conto de Karen Blixen, é uma obra-prima que transcende a narrativa gastronômica para se tornar uma profunda meditação sobre a condição humana. Ambientado em uma isolada vila na costa da Jutlândia, na Dinamarca do século XIX, o longa utiliza a estética cinematográfica e a arte culinária para explorar a transformação de uma comunidade marcada pelo puritanismo religioso através do exercício da gratidão e da generosidade.
A estrutura narrativa estabelece, inicialmente, um contraste rigoroso entre a cultura francesa e a tradição dinamarquesa. As irmãs Martina e Philippa vivem uma existência ascética, fundamentada na renúncia dos prazeres terrenos em nome de uma fé austera herdada de seu pai, o pastor local. A chegada de Babette, uma refugiada da Comuna de Paris, introduz o elemento estrangeiro que, silenciosamente, passa a integrar a rotina daquela comunidade. A técnica de narração, pausada e reflexiva, aliada a uma iluminação inicialmente fria e sombria, reforça a atmosfera de repressão e simplicidade rústica que define a identidade daqueles personagens.
O ponto de inflexão ocorre quando Babette, após ganhar na loteria, decide oferecer um banquete francês em homenagem ao centenário do falecido pastor. Neste momento, a importância da comida e da hospitalidade assume um caráter sacramental. A arte da culinária é apresentada como a mais pura expressão de amor e sacrifício: Babette investe toda a sua fortuna para proporcionar uma experiência que os convidados sequer conseguem nomear. Ao preparar iguarias como “Codorna em Sarcófago”, ela não busca apenas alimentar corpos, mas sim elevar espíritos.
A relação entre comida e memória torna-se evidente na figura do General Löwenhielm. Ao provar os pratos, ele é transportado para o passado, conectando sua trajetória pessoal à sofisticação de Paris. Para os demais convidados, o jantar atua como um catalisador de solidariedade. Sob o efeito da gastronomia e do vinho, as antigas mágoas, as disputas doutrinárias e os silêncios acumulados pela rigidez da fé começam a se dissolver. A câmera de Axel, que antes mantinha certa distância, passa a focar nos detalhes — o brilho do cristal, o vapor dos pratos, as expressões de prazer — simbolizando a transformação da comunidade através dos sentidos.
O filme propõe uma reconciliação entre a fé e a arte. Babette demonstra que a beleza não é uma distração da espiritualidade, mas uma extensão dela. Como afirmado ao final da obra, “um artista nunca é pobre”, pois sua riqueza reside na capacidade de levar os outros à transcendência. O banquete torna-se uma “festa” de graça divina, onde a justiça e a felicidade se beijam, provando que a preservação da cultura e a generosidade são ferramentas poderosas de redenção.
Em suma, “A Festa de Babette” é uma celebração da vida em sua plenitude. Através de uma técnica impecável e uma sensibilidade ímpar, Gabriel Axel nos mostra que, quando a arte é oferecida com gratidão, ela tem o poder de curar feridas sociais e espirituais, transformando o cotidiano em algo sagrado e a memória em uma fonte eterna de identidade e pertencimento.
Ficha Técnica de “A Festa de Babette” (1987)
- Título original: Babettes gæstebud
- Direção: Gabriel Axel
- Roteiristas: Gabriel Axel e Karen Blixen (baseado no conto de Karen Blixen)
- Elenco principal:
- Stéphane Audran como Babette Hersant
- Bodil Kjer como Filippa
- Birgitte Federspiel como Martine
- Jarl Kulle como Lorens Löwenhjelm
- Gênero: Drama, Comédia
- Duração: 1 hora e 42 minutos (102 minutos)
- País de origem: Dinamarca
- Idioma: Dinamarquês, Francês
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