Marcelo Kricheldorf
O filme Cassino (1995), dirigido por Martin Scorsese, não é apenas uma crônica sobre o crime organizado; é uma autópsia cinematográfica da ganância e da transição cultural americana. Baseado na obra documental de Nicholas Pileggi, o longa-metragem utiliza a trajetória de Sam “Ace” Rothstein para ilustrar como a busca absoluta pelo controle e a simbiose entre o dinheiro e o poder podem levar ao colapso inevitável de impérios e indivíduos.
A narrativa estrutura-se sobre a ascensão e queda de Ace Rothstein, um exímio apostador cuja obsessão pela perfeição o torna o administrador ideal para o Tangiers. Scorsese utiliza essa ascensão para explorar a relação entre a Máfia e o crime organizado com a infraestrutura legal de Las Vegas. No entanto, o filme deixa claro que a “Era de Ouro” da cidade era sustentada por uma base de corrupção e decadência. A identidade de Ace é definida pela sua capacidade de extrair lucro, mas sua lealdade é testada quando ele tenta legitimar um mundo que, por natureza, é fora da lei.
Esteticamente, o estilo de Scorsese atinge seu ápice técnico em Cassino. A direção é marcada pelo uso de narrações sobrepostas, montagem frenética e planos-sequência que capturam a escala monumental dos cassinos. Há uma clara influência do cinema italiano, visível na dramaticidade operística e na importância dada à família e à traição. A direção de atores extrai performances viscerais: Robert De Niro entrega uma sobriedade gélida que contrasta com a volatilidade de Joe Pesci, enquanto Sharon Stone personifica a tragédia da autodestruição, equilibrando o brilho das joias com a decadência emocional de sua personagem.
O cenário de Las Vegas atua como um personagem vivo. O filme documenta a transição da “Cidade do Pecado” das mãos dos gângsteres para o controle das grandes corporações. Essa mudança é apresentada como a vitória da burocracia sobre a personalidade, onde o crime se torna menos sangrento, porém mais cínico. A adaptação do livro de Pileggi é fiel ao realismo sujo dos bastidores, mostrando que a vida em Las Vegas era um jogo de aparências onde a vigilância constante era a única garantia de sobrevivência.
Apesar de uma recepção crítica inicial que o comparou excessivamente a Os Bons Companheiros, o tempo consolidou Cassino como uma obra singular. A influência do filme permanece evidente na cultura pop e no subgênero de filmes de máfia, sendo reverenciado pelo seu rigor histórico e visual. Em última análise, Scorsese nos mostra que, no deserto, os segredos são enterrados, mas a poeira da corrupção nunca assenta. O destino de Ace Rothstein é o reflexo de um sistema onde todos tentam enganar a banca, mas, como o próprio filme ensina, no final, o cassino sempre vence.
Ficha Técnica de “Cassino” (1995)
- Título original: Casino
- Direção: Martin Scorsese
- Roteiristas: Nicholas Pileggi e Martin Scorsese (baseado no livro “Casino: Love and Honor in Las Vegas” de Nicholas Pileggi)
- Elenco principal:
- Robert De Niro como Ace Rothstein
- Sharon Stone como Ginger McKenna
- Joe Pesci como Nicky Santoro
- James Woods como Lester Diamond
- Don Rickles como Billy Sherbert
- Gênero: Crime, Drama
- Duração: 178 minutos (2 horas e 58 minutos)
- País de origem: Estados Unidos
- Idioma: Inglês
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