Marcelo Kricheldorf
Lançado em 1987 sob a direção visionária de Alan Parker, Coração Satânico (Angel Heart) estabeleceu-se como uma obra-prima que desafia classificações simplistas. Ao fundir a estética do film noir com o horror sobrenatural e o ocultismo, o longa-metragem não apenas conta uma história de investigação, mas mergulha nas profundezas da psique humana e da inevitabilidade do destino.
A trama inicia-se na Nova York de 1955, onde o detetive particular Harry Angel (Mickey Rourke) é contratado pelo enigmático Louis Cyphre (Robert De Niro) para localizar Johnny Favorite, um músico desaparecido que possui uma dívida pendente. A narrativa é construída como um labirinto clássico de suspense, mas Parker subverte o gênero ao deslocar a ação da metrópole gélida para o calor opressivo e úmido de Nova Orleans. Essa transição geográfica espelha a descida do protagonista a um inferno pessoal, onde a lógica racional da investigação cede lugar ao caos do vodu e do misticismo.
O núcleo emocional do filme reside na busca pela identidade. Harry Angel não está apenas procurando um homem desaparecido; ele está, inconscientemente, tentando montar o quebra-cabeça de sua própria existência fragmentada. O filme utiliza o conceito do “Duplo” (doppelgänger), onde o herói e o vilão são faces da mesma moeda. A jornada de Angel é uma lenta desconstrução de seu ego: à medida que ele se aproxima da verdade sobre Favorite, sua própria sanidade se dissolve, culminando na revelação de que o “outro” que ele persegue é o reflexo sombrio de si mesmo.
A presença de Louis Cyphre evoca o mito de Fausto, mas com uma roupagem moderna e cínica. O pacto com o diabo em Coração Satânico não é uma transação gloriosa, mas uma armadilha burocrática e espiritual da qual não há escape. Parker utiliza uma simbologia riquíssima para reforçar esse determinismo: ventiladores que giram incessantemente sugerindo o ciclo vicioso do pecado; elevadores que descem para subsolos claustrofóbicos; e o uso constante de sombras e luz filtrada que escondem a verdade até o momento do impacto final.
A atuação de Mickey Rourke é, sem dúvida, o ponto alto de sua carreira. Seu Angel é um homem em constante estado de transpiração e pavor, uma vulnerabilidade que contrasta com a calma gélida e predatória de Robert De Niro. A direção de Alan Parker, aliada à fotografia de Michael Seresin, cria uma atmosfera palpável. O espectador quase consegue “sentir” o cheiro de sangue, incenso e decadência que emana da tela. Parker não economiza no visual visceral, usando o horror não para chocar gratuitamente, mas para ilustrar a podridão moral dos personagens.
O filme também oferece uma crítica contundente à hipocrisia social e religiosa. Ao explorar o vodu em Nova Orleans, Parker evita o estereótipo fácil, tratando a prática como uma força cultural potente que preenche o vazio deixado por uma sociedade urbana alienada. A “queda” de Angel é também a queda da inocência americana do pós-guerra, revelando que, sob a superfície da normalidade, residem segredos inomináveis e dívidas de sangue que a modernidade não consegue apagar.
Coração Satânico permanece como um filme seminal por sua coragem em hibridizar gêneros e por sua recusa em oferecer respostas fáceis. É uma obra sobre a impossibilidade de fugir de quem somos e sobre a natureza cíclica do mal. Ao final, a jornada de Harry Angel não termina em redenção, mas em um reconhecimento aterrador: o verdadeiro inferno não é um lugar, mas a consciência plena de nossos próprios atos.
Ficha Técnica de “Coração Satânico” (1987)
- Título original: Angel Heart
- Direção: Alan Parker
- Roteiristas: Alan Parker e William Hjortsberg
- Elenco principal:
- Mickey Rourke como Harry Angel
- Robert De Niro como Louis Cyphre
- Lisa Bonet como Epiphany Proudfoot
- Charlotte Rampling como Margaret Krusemark
- Michael Higgins como Dr. Albert Fowler
- Elizabeth Whitcraf como Connie
- Gênero: Suspense, Terror, Mistério
- Duração: 1h 53min (113 minutos)
– País de origem: Reino Unido, Canadá, Estados Unidos
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