Marcelo Kricheldorf
Em 1971, o jovem Steven Spielberg entregou ao mundo uma das obras mais viscerais sobre o medo humano. Adaptado de um conto de Richard Matheson, Encurralado apresenta uma narrativa minimalista: um homem comum em uma viagem de negócios é perseguido por um caminhão-tanque em uma estrada deserta. O que começa como um desentendimento de trânsito evolui para um duelo existencial, onde a técnica cinematográfica transforma um veículo em um monstro e um vendedor em um guerreiro relutante.
O protagonista, David Mann — cujo sobrenome sugere a palavra “homem” (man) em inglês — simboliza o indivíduo médio da classe média americana: civilizado, passivo e dependente da ordem social. Sua psicologia é posta à prova quando ele se depara com o absoluto desconhecido. Ao optar por nunca mostrar o rosto do motorista do caminhão, Spielberg retira a motivação humana do conflito. Não há diálogo, negociação ou motivo aparente. Esse vácuo de informação gera um terror existencial; o medo não é apenas da morte, mas da falta de sentido na agressão, transformando a perseguição em uma experiência kafkiana.
O Peterbilt 281 enferrujado não é apenas um veículo, mas a representação de uma força da natureza corrompida pela mecânica. Spielberg exigiu que o caminhão estivesse coberto de sujeira e óleo, além de adorná-lo com placas de vários estados, sugerindo um rastro de vítimas anteriores. Há uma crítica implícita à desumanização causada pela tecnologia: David Mann está isolado dentro de seu carro, incapaz de se comunicar com seu algoz. A máquina, criada para servir ao homem, aqui se torna o predador alfa, expondo a fragilidade das estruturas modernas frente à força bruta analógica.
A estética de Encurralado é um triunfo da economia narrativa. Com pouco orçamento, Spielberg utilizou ângulos de câmera ao nível do asfalto para conferir uma escala titânica ao caminhão e cortes rápidos que ditam o ritmo cardíaco da audiência. O filme utiliza tropos do cinema de terror — como o isolamento em um cenário hostil e o “monstro” imparável — que seriam reciclados pelo diretor em Tubarão (1975). A trilha sonora discordante e o uso do silêncio amplificam a tensão, tornando o deserto um personagem opressor que assiste passivamente à luta pela sobrevivência.
A obra também funciona como uma sátira à masculinidade e à etiqueta social. Mann tenta, repetidamente, resolver a situação através da razão e das leis de trânsito, apenas para perceber que essas convenções são inúteis no “estado de natureza” das estradas da Califórnia. O filme sugere que, sob a camada de civilidade, o ser humano ainda é um animal que precisa lutar para não ser extinto. A vitória final de Mann não é apenas física, mas uma catarse psicológica onde ele descobre uma resiliência que a vida urbana havia atrofiado.
O legado de Encurralado é imensurável. Ele provou que o suspense não depende de grandes elencos ou efeitos especiais complexos, mas de uma compreensão profunda da montagem e do ritmo. Spielberg demonstrou que a câmera pode ser um instrumento de tortura psicológica para o espectador. Meio século depois, o filme permanece como um estudo essencial sobre a paranoia e a resiliência humana, mantendo-se como uma das estreias mais impactantes da história do cinema
Ficha Técnica de “Encurralado” (1971)
- Título original: Duel
- Direção: Steven Spielberg
- Roteiristas: Richard Matheson (baseado em seu próprio conto)
- Elenco principal:
- Dennis Weaver como David Mann
- Jacqueline Scott como Mrs. Mann
- Eddie Firestone como o cafezinho
- Cary Loftin como o motorista do caminhão (não creditado)
- Gênero: Suspense, Aventura
- Duração: 74 minutos (1 hora e 14 minutos)
- País de origem: Estados Unidos.
- Idioma: Inglês
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