Análise do Filme: Os Intocáveis (1987)

Critica de Filmes

Marcelo Kricheldorf

Lançado em 1987, “Os Intocáveis”, sob a direção magistral de Brian De Palma, transcendeu o status de um simples drama policial para se tornar um pilar do cinema moderno. Com roteiro assinado pelo dramaturgo David Mamet e uma trilha sonora inesquecível de Ennio Morricone, o filme não apenas reconta a queda de Al Capone, mas oferece uma meditação profunda sobre o custo da integridade em um mundo dominado pela amoralidade.
O enredo centra-se em Eliot Ness (Kevin Costner), um agente federal cuja missão é interromper o tráfico de bebidas em Chicago durante a Lei Seca. A narrativa é estruturada como um embate épico: de um lado, o império decadente e luxuoso de Al Capone (Robert De Niro); do outro, um pequeno grupo de homens que se recusam a ser comprados. O filme explora a transformação de Ness, que inicia sua jornada como um burocrata legalista e termina compreendendo que, para derrotar um monstro, é necessário, por vezes, abandonar as regras civilizadas e adotar os métodos “da rua”.
A força do filme reside na química de seu elenco. Jim Malone, interpretado por Sean Connery (papel que lhe rendeu o Oscar), é o mentor cínico, mas honrado, que ensina a Ness a “regra de Chicago”: se eles sacarem uma faca, você saca uma arma. Malone representa a experiência e o sacrifício. Ao lado deles, George Stone (Andy Garcia), o atirador de elite, e Oscar Wallace (Charles Martin Smith), o contador que prova que a caneta pode ser tão letal quanto a metralhadora, formam um quarteto que simboliza diferentes facetas da justiça. Em oposição, o Capone de De Niro é uma figura operística — violenta, teatral e assustadoramente carismática.
Brian De Palma utiliza o filme como uma vitrine de sua virtuosidade técnica. A atmosfera de Chicago nos anos 30 é recriada com um visual suntuoso, figurinos assinados por Giorgio Armani e uma cinematografia que alterna entre grandes planos abertos e closes claustrofóbicos.
A cena mais famosa do filme — o tiroteio na Union Station com o carrinho de bebê descendo as escadas — é uma referência direta à “Escadaria de Odessa” do filme mudo O Encouraçado Potemkin (1925). Essa homenagem não é apenas estética; ela eleva o filme de gângster ao nível do mito cinematográfico, transformando uma cena de ação em uma coreografia de suspense puro.
O filme argumenta que a justiça é impossível sem a lealdade. A “intocabilidade” do grupo não advém apenas do fato de não aceitarem subornos, mas da fé inabalável que depositam uns nos outros. A corrupção é apresentada como uma doença sistêmica que infecta a polícia, os juízes e a prefeitura. A luta de Ness não é apenas contra o crime organizado, mas contra a apatia e a complacência de uma sociedade que se acostumou com o mal.
Trinta e oito anos após seu lançamento, Os Intocáveis permanece como o padrão ouro para o gênero. Ele influenciou a estética de inúmeras séries policiais e estabeleceu tropos que ainda hoje vemos em Hollywood: o mentor que morre para inspirar o herói, o vilão extravagante e a ideia de que a lei, às vezes, precisa de “homens maus” (ou dispostos a atos extremos) para defendê-la.
Em última análise, o filme de De Palma é um triunfo da forma e do conteúdo. Ele nos lembra que a justiça é um caminho árduo, pavimentado com perdas pessoais, mas que a integridade — a capacidade de permanecer “intocável” diante da tentação — é a única coisa que realmente separa a civilização da barbárie.

Ficha Técnica de “Os Intocáveis” (1987)

  • Título original: The Untouchables
  • Direção: Brian De Palma
  • Roteiristas: David Mamet
  • Elenco principal:
  • Kevin Costner como Eliot Ness
  • Sean Connery como Jim Malone
  • Robert De Niro como Al Capone
  • Charles Martin Smith como Oscar Wallace
  • Andy Garcia como George Stone
  • Gênero: Crime, Drama, História
  • Duração: 119 minutos
  • País de origem: Estados Unidos
  • Prêmios:
  • Oscar de Melhor Ator Coadjuvante (Sean Connery)

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