Análise do Filme: Tubarão (1975)

Critica de Filmes Terror

Marcelo Kricheldorf

Lançado no verão americano de 1975, o filme “Tubarão” (Jaws) transcendeu a sua premissa de filme de monstro para se tornar um estudo antropológico sobre o medo, a política e a condição humana. Dirigido pelo então jovem Steven Spielberg, o longa-metragem equilibra com maestria a técnica cinematográfica de vanguarda com temas sociais profundos que permanecem relevantes até hoje.
A narrativa de “Tubarão” é centrada na pacata Ilha de Amity, cuja economia depende inteiramente do turismo de verão. Quando um grande tubarão-branco começa a atacar banhistas, a narrativa se divide entre o horror visceral e o suspense psicológico. Curiosamente, a força do filme reside na ausência: devido a falhas técnicas constantes no tubarão mecânico (apelidado de “Bruce”), Spielberg optou por sugerir a presença da criatura através de pontos de vista subaquáticos e da icônica trilha sonora de John Williams.
Essa técnica elevou o Medo do Desconhecido a um novo patamar. O tubarão deixa de ser apenas um animal e passa a ser uma Representação do Mal — uma força da natureza imparável, desprovida de remorso, que ataca o santuário da segurança humana: a praia.
Um dos pilares socioeconômicos do roteiro é a Crítica à Autoridade. O conflito central não ocorre apenas entre homem e natureza, mas entre o Chefe de Polícia Martin Brody e o Prefeito Larry Vaughn. O prefeito, representando o capitalismo negligente, recusa-se a fechar as praias por medo de arruinar a temporada turística. Esta Crítica ao Turismo desenfreado ressoa até hoje, ilustrando como o lucro muitas vezes é colocado acima da vida humana. A Busca por Justiça de Brody torna-se, então, uma luta solitária contra a burocracia estatal antes mesmo de se tornar uma caçada marítima.
No terceiro ato, o filme transforma-se em uma epopeia náutica a bordo do barco Orca. A Luta contra a Natureza é personificada pelo choque de três mundos: o pragmatismo da lei (Brody), o rigor acadêmico da ciência (Matt Hooper) e o instinto selvagem e traumatizado da experiência (Quint).
A sobrevivência e o eventual sucesso contra o predador dependem da Importância da Cooperação. Spielberg utiliza a dinâmica entre esses três homens para mostrar que nem a ciência pura, nem a força bruta, nem a autoridade administrativa são suficientes isoladamente; apenas a união de competências permite ao homem enfrentar o que é maior que ele mesmo.
O aspecto mais célebre da cinematografia de Tubarão nasceu da necessidade: como o tubarão mecânico frequentemente quebrava, Spielberg decidiu sugerir a criatura em vez de mostrá-la. Isso foi alcançado através do plano subjetivo. Ao posicionar a câmera sob a água, movendo-se de forma fluida e predatória, o espectador é forçado a assumir o olhar do monstro. Essa escolha transfere o horror do campo visual para o imaginário, onde o medo do desconhecido é potencializado pela trilha sonora minimalista de John Williams.
A escolha da altura da câmera é fundamental para a imersão. Spielberg utilizou frequentemente planos ao nível da água, o que gera uma sensação de vulnerabilidade absoluta. O espectador não observa o mar de uma posição segura e elevada; ele está “mergulhado” com as vítimas.
Um dos momentos técnicos mais brilhantes do filme é o uso do Dolly Zoom (ou “Efeito Vertigo”) na cena em que o Chefe Brody presencia o ataque ao garoto Alex Kintner. Ao avançar a câmera enquanto retrai o zoom, Spielberg distorce a perspectiva do cenário, isolando Brody em um momento de paralisia e choque. Esse recurso traduz visualmente a súbita realização do horror interno do personagem.
A mise-en-scène evolui conforme a narrativa se desloca da terra para o mar:
Em Amity Island: Os planos são amplos e povoados, utilizando uma profundidade de campo profunda (lentes de foco dividido ou split-diopter). Isso permite que vejamos a reação nervosa de Brody em primeiro plano enquanto, ao fundo, a praia continua cheia e vulnerável, criando uma tensão constante entre o perigo iminente e a ignorância da massa.
Assim que os protagonistas partem para a caça, a cinematografia torna-se claustrofóbica. O uso de planos fechados e composições que “espremem” os três personagens no deck do barco destaca o isolamento e o conflito de egos entre o policial (Brody), o cientista (Hooper) e o caçador (Quint). O horizonte é mantido baixo para enfatizar a vastidão esmagadora do oceano ao redor da pequena embarcação.
Ao contrário dos filmes de monstro da época, que utilizavam sombras expressionistas e ambientes escuros, Butler optou por uma iluminação naturalista. O horror acontece sob o sol brilhante do meio-dia. Essa escolha subverte a expectativa de segurança associada à luz, provando que o perigo não precisa de sombras para ser aterrador.
Em suma, a cinematografia de Tubarão é uma lição de economia visual e manipulação psicológica. Através da alternância entre o olhar do predador e a vulnerabilidade das vítimas, e do uso magistral de técnicas de câmera para expressar estados emocionais, Spielberg e Butler criaram uma obra onde o que não se vê é tão aterrorizante quanto o que se vê.

Ficha Técnica de “Tubarão” (1975)

  • Título original: Jaws
  • Direção: Steven Spielberg
  • Roteiristas: Peter Benchley, Carl Gottlieb
  • Elenco principal:
  • Roy Scheider como Xerife Martin Brody
  • Robert Shaw como Quint
  • Richard Dreyfuss como Matt Hooper
  • Lorraine Gary como Ellen Brody
  • Murray Hamilton como Prefeito Larry Vaughn
  • Gênero: Suspense, Aventura
  • Duração: 1 hora e 44 minutos (124 minutos)
  • País de origem: Estados Unidos
  • Idioma: Inglês

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