Assim como eu, rsrs. O grande diretor Federico Fellini carregava uma ternura inexplicável pelos palhaços e pela Commedia dell’Arte. Algo nele se reconhecia nessa gente que transforma a própria vida em gesto, riso, lágrima e máscara. Talvez porque, no fundo, os palhaços sejam isso mesmo: espelhos exagerados da humanidade que tentamos esconder.
Fellini os via como figuras arquetípicas, habitantes de um território entre a alegria e a melancolia, entre a inocência e a crueldade. Para ele, eram os verdadeiros cidadãos do mundo: criaturas que sabem rir de si mesmas enquanto carregam a dor do outro. Dessa paixão nasceu o filme-documentário Os Palhaços (I Clowns, 1970), onde o diretor mistura realidade e fantasia com a naturalidade de quem respira poesia.
A influência da Commedia dell’Arte, esse teatro improvisado que moldou grande parte da cultura italiana, pulsa no estilo visual de Fellini. Seus personagens exagerados, seus arquétipos brincalhões — os Zanni, os Arlecchinos, os bufões que aparecem como ecos em filmes como La Strada (1954) e Amarcord (1973).
Em Os Palhaços, Fellini faz algo raro: cria seu próprio circo cinematográfico. Procura os últimos grandes artistas de picadeiro como quem busca fósseis vivos de um tempo que não queria deixar morrer. Não é seu filme mais monumental, alguns diriam até que é irregular. Mas cada plano pulsa com a força de um criador único, que filma como quem sonha e quem lembra ao mesmo tempo.
O palhaço, ali, não é apenas personagem, é memória. Fellini revisita a primeira vez em que viu um picadeiro, ainda menino em Rimini. E, como não conseguia transformar esse sentimento em palavras, decidiu mostrá-lo em imagens. O filme é isso: uma colagem de recordações, uma mistura de biografia, história do circo e melancolia italiana.
Originalmente criado para a TV como documentário, Fellini percebeu que não conseguiria ser “objetivo”. Então fez aquilo que só ele sabia: uma paródia de documentário, uma obra híbrida em que o cinema observa o próprio cinema. Entre cenas reais do circo e sequências ficcionais, o diretor cria uma metalinguagem incrível.
E, como mestre da linguagem cinematográfica, Fellini sabe exatamente o que mostrar e quando mostrar. No meio de uma confusão de palhaços, ele nos guia o olhar. No cinema, diferente do circo, não precisamos adivinhar onde pousar os olhos. Ele conduz a nossa emoção, recorta o caos, acende pequenas luzes no meio da desordem.
O roteiro, embora livre, é surpreendentemente coeso. No primeiro ato, por exemplo, vemos uma criança reagindo ao seu primeiro contato com um espetáculo de palhaços: um medo inexplicável, quase intraduzível. Sem palavras para explicar essa sensação, Fellini decide recriá-la em imagens, e nos conduz por outras cenas que despertam o mesmo sentimento. A estética é suave, afetiva. O discurso é silenciado, mas não mudo.
E assim, de sequência em sequência, o filme nos transmite algo que não cabe na razão: a sensação puríssima de ser tocado por um riso que nasce do vulnerável.
Eu, em particular, sou profundamente tocada por essas emoções, é como se fosse transportada de volta à infância.
Fellini, aliás, aparece frequentemente em sua própria obra.
O ato da palhaçaria é algo impressionante, e Fellini soube traduzir esse universo com rara sensibilidade, deixando para nós uma verdadeira relíquia.
Essa fusão entre o documental e a ficção confere à narrativa um brilho especial, e novamente, ele próprio atua, o que torna tudo ainda mais envolvente.
Ao nos debruçarmos sobre cada tipo de clown, encontramos algumas classificações fundamentais: o Branco e o Augusto.
Quando penso em clown, penso imediatamente no Augusto. De fato, são essas duas figuras que compõem o coração da palhaçaria: O clown branco, representante da elegância, da graça, da harmonia, da inteligência e da lucidez. O augusto, seu contraponto essencial.
“Se me imagino como palhaço, acho mesmo que devo ser um augusto. Mas também um clown branco. Ou, talvez, seja o diretor do circo. O médico dos loucos que, por sua vez, é louco”
Federico Fellini
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