Marcelo Kricheldorf
Billy Wilder não foi apenas um diretor de cinema; foi um cronista da alma humana e um dos mais perspicazes observadores da sociedade americana do século XX. Imigrado da Europa para fugir do nazismo, Wilder trouxe consigo o olhar distanciado do estrangeiro, o que lhe permitiu dissecar as hipocrisias, os vícios e as virtudes de sua pátria adotiva com uma precisão cirúrgica. Sua filmografia é um mosaico de gêneros que, embora distintos, compartilham um DNA comum: diálogos afiados, cinismo elegante e uma profunda humanidade oculta sob camadas de ironia.
A essência do estilo de Wilder reside em sua formação como jornalista em Berlim e Viena. Essa experiência moldou seu faro para o “furo”, para o detalhe sórdido e para a objetividade narrativa. Em seus filmes, a exposição é rápida e os fatos são apresentados sem sentimentalismo. Somado a isso, a influência do teatro é onipresente. Wilder priorizava o texto acima de qualquer exibicionismo visual. Para ele, a câmera servia à palavra. Essa reverência à dramaturgia foi potencializada por sua colaboração histórica com o roteirista I.A.L. Diamond. Juntos, criaram uma mecânica de escrita perfeita, onde cada piada ou reviravolta servia para aprofundar o caráter dos personagens, como exemplificado na estrutura impecável de Quanto Mais Quente Melhor.
A contribuição de Wilder para o film noir é fundacional. Em Pacto de Sangue, ele estabeleceu a essência do estilo: a narração em voz off, a iluminação contrastada e o destino trágico. No entanto, sua abordagem ao noir era também uma exploração da moralidade. Seus protagonistas não são heróis, mas indivíduos comuns seduzidos pela cobiça ou pelo desejo. Essa selva moral frequentemente encontrava seu cenário ideal na cidade de Nova York. Em filmes como Se Meu Apartamento Falasse, a metrópole é retratada como um organismo burocrático e alienante, onde o indivíduo é apenas mais uma peça na engrenagem corporativa, evidenciando a solidão em meio à multidão.
Wilder foi, talvez, o maior crítico do “American Way of Life” dentro do sistema de estúdios. Ele não poupou a ganância de Hollywood em Crepúsculo dos Deuses, nem o sensacionalismo cruel da mídia em A Montanha dos Sete Abutres. Sua sátira social não era panfletária, mas embutida na comédia ou no drama policial. Ele expunha como a busca pelo sucesso a qualquer custo corroía a ética individual. A representação da mulher em seus filmes também refletia essa complexidade: da femme fatale manipuladora de Barbara Stanwyck à vulnerabilidade resiliente de Shirley MacLaine, suas personagens femininas eram frequentemente o motor moral (ou a ruína) de homens moralmente frágeis.
A abordagem da moralidade em Wilder é complexa. Ele possuía uma empatia genuína pelos “perdedores” e trapaceiros, entendendo que a sobrevivência muitas vezes exige concessões éticas. Seu cinema não julga; ele revela. A contribuição de Wilder para o cinema americano é imensurável: ele ensinou que é possível ser comercialmente bem-sucedido mantendo uma visão de mundo adulta, sofisticada e, por vezes, devastadora.
Hoje, a influência de Wilder pode ser vista em qualquer roteiro que utilize o humor para tratar de temas sombrios. Ele permanece como o mestre do equilíbrio tonal, provando que, através da lente certa, até a maior das tragédias pode ter um toque de ironia.
![]()

