Marcelo Kricheldorf
O cinema na América Latina nunca foi apenas uma forma de entretenimento; ele consolidou-se, historicamente, como uma ferramenta de intervenção política e de investigação identitária. Ao longo do século XX, cineastas do Brasil, Bolívia, Argentina, Cuba e Chile, romperam com a hegemonia estética de Hollywood para criar o que ficou conhecido como “Terceiro Cinema”. Essa produção não buscava o lucro, mas a consciência: o objetivo era descolonizar o olhar do espectador e utilizar a tela como um espaço de denúncia das injustiças sociais, das ditaduras militares e da busca incessante por uma identidade cultural autêntica frente ao imperialismo.
No Brasil, o movimento mais influente foi o Cinema Novo. Liderado por figuras como Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos, o movimento propunha uma “estética da fome”, onde a escassez de recursos era convertida em potência criativa. Filmes como “Vidas Secas” (1963) capturaram a agonia do sertanejo e a opressão cíclica da seca, enquanto “Ganga Zumba” (1963), de Cacá Diegues, resgatou a história do Quilombo dos Palmares, inserindo a resistência negra no cerne da narrativa nacional. Durante a ditadura militar, o cinema brasileiro tornou-se um refúgio metafórico, criticando a repressão e a opressão social através de uma linguagem que misturava o realismo cru com a riqueza da cultura popular, do samba e das manifestações religiosas, consolidando uma identidade visual brasileira vibrante e profunda.
A cinematografia boliviana destaca-se pelo seu profundo compromisso com as populações originárias e com a luta revolucionária. Jorge Sanjinés e o Grupo Ukamau revolucionaram a linguagem cinematográfica ao adotar o “protagonismo coletivo”. Em obras como “Ukamau” (1966) e “El Coraje del Pueblo” (1971), o cinema deixou de ser sobre o povo para ser com o povo. Estes filmes abordaram de forma contundente a exploração econômica e o massacre de mineradores, denunciando a herança colonial que ainda marginalizava os indígenas. A busca pela identidade boliviana passou, obrigatoriamente, pela recuperação da história e das línguas nativas (como o quíchua e o aimará), transformando o filme em um instrumento de resistência e soberania cultural.
Na Argentina, o cinema serviu como um campo de batalha ideológico, fortemente influenciado pelo movimento peronista e pelas tensões de classe. O documentário “La Hora de los Hornos” (1968), de Solanas e Getino, tornou-se um marco global por sua estrutura militante, convocando o espectador à ação direta contra o neocolonialismo. Paralelamente, filmes como “Los Traidores” (1972) exploraram a corrupção dentro das estruturas sindicais, refletindo a complexidade política do país. Mesmo sob a censura das ditaduras, o cinema argentino persistiu em explorar a cultura popular e a psique urbana, utilizando a memória como forma de justiça social e buscando compreender as fraturas de uma sociedade em constante conflito com o autoritarismo.
Com o triunfo da Revolução Cubana em 1959, o cinema passou a ser gerido pelo ICAIC (Instituto Cubano del Arte e Industria Cinematográficos), que via na sétima arte um meio pedagógico e emancipador. Diferente do realismo socialista rígido de outros países, o cinema cubano foi experimental e autocrítico. Tomás Gutiérrez Alea, em “Memorias del Subdesarrollo” (1968), ofereceu uma análise sofisticada da alienação burguesa em meio às transformações revolucionárias. Ao mesmo tempo, “La Muerte de un Burócrata” (1966) utilizou o humor e a sátira para criticar o próprio sistema estatal. Cuba utilizou o cinema para reafirmar sua independência diante do imperialismo, celebrando a fusão de suas raízes africanas e hispânicas na construção de uma nova identidade socialista.
No Chile, o Terceiro Cinema se transformou em ferramenta de libertação social, rompendo com os padrões comerciais de Hollywood. Inspirado pela Revolução Cubana, o movimento focou na crítica ao imperialismo e na construção de uma identidade cultural centrada nas massas populares. Sob a liderança de diretores como Miguel Littín e Raúl Ruiz, a produção alcançou seu ápice no governo de Salvador Allende, utilizando a estatal Chile Films para documentar as reformas socialistas e mobilizar o povo. Com o golpe militar de 1973, o cinema sofreu violenta repressão e censura, forçando cineastas ao exílio, onde mantiveram a denúncia internacional contra a ditadura. Seu legado perdura como um exemplo de arte engajada que prioriza a soberania nacional e a memória histórica da América Latina.
Entre as principais obras Terceiro Cinema Chileno produzidos entre as décadas de 1960 e 1970 destacam-se O Chacal de Nahueltoro (Miguel Littín, 1969), A Batalha do Chile (Patricio Guzmán, trilogia iniciada em 1975), Três Tristes Tigres (Raúl Ruiz, 1968), Venceremos (Pedro Chaskel e Héctor Ríos, 1970).
Em suma, o cinema latino-americano compartilha um traço fundamental: a recusa em ser passivo. Seja através do realismo do Cinema Novo, do protagonismo indígena boliviano, da militância argentina,da dialética cubana ou da resistência chilena, essas cinematografias serviram como crônicas vivas de um continente em busca de si mesmo. Mais do que registrar a história, esses cineastas ajudaram a moldá-la, provando que o cinema é, acima de tudo, um ato de liberdade e um espelho essencial para a compreensão da condição humana na América Latina.
Fontes de Pesquisa para Elaboração do Artigo
Manifesto dos Cineastas da Unidade Popular (1971)
Estética da Fome (1965): Manifesto de Glauber.
Por um Cinema Imperfeito (1969): Ensaio de Julio García Espinosa.
Novo Cinema Latino-Americano (Ignacio Del Valle-Dávila)
O Olho da Revolução – O Cinema Urgente de Santiago Alvarez (Amir Labaki).
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