Análise “Iracema, um retrato da exploração da Amazônia” (1974)

Critica de Filmes

O ano era 1977. E eu tinha acabado de entrar na famosa Escola de Comunicações e Artes da USP – a ECA. Pelos corredores, falava-se de tudo: política, literatura, cinema e música. Não necessariamente nessa ordem. E falava-se muito de “Iracema, Uma Transa Amazônica” (1974), de Jorge Bodansky e Orlando Senna, que estava proibido no Brasil.

Na ingenuidade dos meus 17 anos, imaginava tratar-se de uma obra pornográfica. Afinal, vivia-se no país das pornochanchadas. Ledo engano. O filme, um misto de documentário e ficção, está longe de ser uma pornochanchada. No entanto, não deixa de ser, de alguma forma, pornográfico no sentido de mostrar a exploração e degradação da jovem Iracema, uma metáfora da própria Amazônia.

Produzido para a ZDF, uma importante emissora de televisão da Alemanha, a fita só foi exibida porque um temporal impediu um jogo de futebol que ia ser televisionado naquele país. A partir daí, foi aclamado e recebeu vários prêmios, entre eles o Prêmio Especial no Festival de Cannes pelo Reencontre Film et Jeunesse. 

Esse filme não seria produzido nos tempos atuais. A diferença de idade entre a adolescente Edna de Cássia, como Iracema, e Paulo Cesar Pereio, como Tião Brasil Grande, não permitiria. Mas, o que choca de verdade é perceber que todos os elementos que ouvimos e sabemos sobre a Amazônia de hoje, já estavam neste filme há mais de 50 anos.

Nele, podemos observar desde a colheita e o comércio de açaí, as viagens de barco pelos igarapés, até a exploração do gado e da madeira, as queimadas, as derrubadas de árvores, a prostituição e as grilagens. Nada mudou. Apenas a soja, que invadiu também essa parte do país.

Os diálogos são hipócritas em relação à preservação da floresta. Frases como: “Nós não vamos derrubar uma árvore. Nós vamos dar emprego direto a seis mil pessoas”, entre outras, soam atuais. Assim como outras fatalistas: “Precisamos tomar conta da Amazônia. Isto aqui é uma mina de ouro que precisa ser explorada”.

Estas são as conversas de Tião Brasil Grande e as pessoas com quem se encontra. Sem roteiro rigoroso, o filme deu margem ao improviso e retrata pessoas reais da região. Tião encontra Iracema durante o Círio de Nazaré, em Belém. Ela, uma adolescente curiosa como tantas outras no Brasil. Em meio ao relacionamento entre os dois, ele solta frases em tom irônico como “Ninguém segura esse país!”

Não se pode esquecer que Iracema é um anagrama de América. A história faz referência ao romance “Iracema”, de José de Alencar, em que a “virgem dos lábios de mel” se apaixona pelo colonizador Martim, que a abandona para lutar contra os Tabajaras.

A rodovia Transamazônica era considerada de suma importância para o desenvolvimento e o progresso do país. E mostrar essa realidade foi objeto de censura por anos e anos. Em 1980, o filme foi liberado e recebeu quatro Candangos no Festival de Brasília, além do prêmio de Melhor Filme. Ele está listado como um dos 100 melhores filmes brasileiros pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), ocupando o 21º. Lugar.

Em 2024, “Iracema, Uma Transa Amazônica” completou 50 anos e foi relançado em versão 4K.

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5 thoughts on “Análise “Iracema, um retrato da exploração da Amazônia” (1974)

  1. Gostei muito de ler sua materia sobre o filme. Acho que não assisti na época em que foi liberado. Fiquei curiosa para assistir agora e entender o que mudou de lá até o Manas.

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