Marcelo Kricheldorf
O Festival de Cannes não é apenas a maior vitrine do cinema mundial; é o santuário onde se cultua a figura do “autor”. Desde a sua consolidação no pós-guerra, o evento tornou-se indissociável da ideia de que o cinema é, primordialmente, uma expressão individual e artística, e não apenas um produto de entretenimento. No centro dessa dinâmica está o autorismo, uma filosofia que transformou diretores em deuses e Cannes em seu templo principal.
A concepção desse modelo remonta à Politique des Auteurs, formulada pelos críticos da Cahiers du Cinéma na década de 1950. A premissa era revolucionária: o diretor, e não o estúdio ou o roteirista, é o verdadeiro “autor” do filme, imprimindo nele uma assinatura estética e temática constante. Em Cannes, essa política evoluiu para uma ferramenta de manutenção de status. Ao criar um “clube exclusivo” de cineastas — nomes como Almodóvar, Haneke e os irmãos Dardenne, que retornam sistematicamente à competição, o festival estabelece uma hierarquia de prestígio. Esse sistema garante que certas vozes sejam ouvidas perpetuamente, mas também pode criar uma barreira de entrada para o novo, protegendo veteranos mesmo quando suas obras não alcançam o brilho em outros momentos.
Historicamente, a definição de “autor” em Cannes foi estreita, refletindo um viés eurocêntrico e predominantemente masculino. Por décadas, a visão singular celebrada era a do homem europeu. No entanto, o autorismo contemporâneo enfrenta uma crise de representatividade necessária. Atualmente, o festival busca redefinir quem detém a autoridade narrativa. A diversidade de gênero, raça e geografia deixou de ser uma pauta externa para se tornar o cerne do debate sobre o que constitui um autor. A urgência agora é provar que a “assinatura artística” é tão válida na periferia do mundo ou no cinema feminino quanto nos centros tradicionais de poder, democratizando o acesso ao status de gênio.
O autorismo em Cannes não foi estático. Se nos anos 60 a evolução era marcada pela experimentação formal da Nouvelle Vague, o século XXI trouxe o que muitos chamam de “autorismo de gênero”. O festival passou a abraçar diretores que utilizam as estruturas do cinema policial, do terror ou da ficção científica para expressar visões pessoais profundas. Hoje, a evolução caminha para um mercado digital, onde a autoria é testada em novas plataformas e linguagens visuais, provando que a essência do autorismo reside na subjetividade do olhar, independentemente do suporte tecnológico utilizado.
Para a indústria cinematográfica, o selo de “autor premiado em Cannes” funciona como uma marca de luxo que agrega valor de mercado a filmes que, de outra forma, seriam comercialmente inviáveis. Através do Marché du Film*, o festival transforma prestígio cultural em contratos de distribuição global. O autorismo, portanto, permite que o cinema de arte sobreviva em um mercado dominado por blockbusters, criando um nicho de alto valor que alimenta cinemas de rua, plataformas de streaming especializadas e festivais ao redor do mundo.
Por fim, o papel da crítica cinematográfica é fundamental na manutenção desse processo. Em Cannes, a crítica não apenas avalia filmes; ela constrói a narrativa do autor. As reações da imprensa especializada, os famosos aplausos de pé ou as vaias são o combustível que alimenta o mito da autoria. O crítico atua como um exegeta, decifrando os símbolos do diretor e convencendo o público da importância daquela obra. Sem a validação crítica, o autorismo seria apenas uma pretensão individual; com ela, torna-se um cânone cultural.
O autorismo é ponto de destaque do Festival de Cannes. Embora tenha servido como uma ferramenta de exclusão no passado, sua evolução aponta para um futuro onde a visão singular do indivíduo continua sendo a prioridade máxima. Ao equilibrar a tradição de seus grandes mestres com a abertura para novas e diversas vozes, Cannes garante que o cinema permaneça, acima de tudo, como uma forma de arte vibrante, autoral e profundamente humana.
Informações Adicionais
Marché du Film é o braço comercial do Festival de Cannes, considerado o maior mercado cinematográfico
Criado em 1959, o mercado funciona como o centro econômico da indústria do cinema, onde produtores, distribuidores, agentes de vendas e investidores se reúnem para negociar direitos de exibição, buscar financiamento e formar parcerias de coprodução.
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