O Cinema de Dario Argento

Cinema

Marcelo Kricheldorf

Dario Argento não é apenas um diretor de cinema de terror; ele é um arquiteto do pesadelo. Sua obra representa o ápice de uma transição onde o enredo se curva diante da imagem, e a lógica cede lugar à sensação. Ao longo de décadas, Argento construiu um estilo inconfundível que funde a brutalidade com a beleza, criando um cinema que é, simultaneamente, repulsivo e hipnótico. A influência do Barroco no cinema de Argento é onipresente. Diferente do minimalismo, Argento abraça o excesso. Seus cenários são repletos de geometria complexa, cores primárias vibrantes como o vermelho pulsante de Suspiria e um uso dramático de luz e sombra que remete a pintura do mestre Caravaggio. O espaço cinematográfico em suas obras não é passivo; ele sufoca os personagens. A arquitetura de grandes edifícios europeus torna-se um labirinto mental onde o fantástico e o real se fundem, transformando a realidade cotidiana em um cenário de ópera trágica.
No universo de Argento, o corpo humano é a fronteira final da expressão artística. A relação entre o corpo e a morte é tratada com um voyeurismo quase clínico, mas esteticamente coreografado. A violência não é apenas um susto,mas uma sequência prolongada, uma “morte” que desafia o espectador a não desviar o olhar.
Essa experiência sensorial é intensificada pela música. A colaboração com a banda Goblin e compositores como Ennio Morricone elevou o som a um status de protagonista. As trilhas sonoras de Argento, carregadas de sintetizadores progressivos e coros dissonantes, funcionam como um ataque psicológico, preparando o terreno para o horror antes mesmo que ele se manifeste visualmente. A representação da mulher em seus filmes é alvo de intensos debates acadêmicos. Embora muitas vezes colocadas como vítimas de crimes estilizados, as mulheres de Argento são frequentemente as únicas capazes de decifrar os enigmas sombrios. Elas navegam por uma sociedade decadente, onde as instituições falham em proteger o indivíduo. Argento utiliza o terror para expor a fragilidade das normas sociais e a podridão oculta sob a superfície da modernidade europeia.
A marca registrada de Argento é o uso da câmera subjetiva. Ao colocar o espectador no ponto de vista do assassino, o diretor quebra a barreira da passividade. O espectador não está apenas assistindo a um crime; ele está, visualmente, cometendo-o. Essa relação entre o diretor e o espectador é baseada na cumplicidade e no voyeurismo. Argento bebe diretamente da fonte do suspense de Hitchcock e do expressionismo alemão, mas os radicaliza, tornando o ato de “ver” o tema central de sua filmografia.
O cinema de Dario Argento permanece vital em 2026 por sua capacidade de transformar o medo em arte pura. Ele provou que o horror não precisa ser realista para ser impactante; pelo contrário, é no exagero, na música pulsante e na morte coreografada que ele encontra a verdade sobre as ansiedades humanas.

Principais Obras de Filmografia de Dario Argento:

  • O Pássaro das Plumas de Cristal (L’uccello dalle piume di cristallo, 1970)
  • O Gato de Nove Caudas (Il gatto a nove code, 1971)
  • Quatro Moscas sobre Veludo Cinza (Quattro mosche di velluto grigio, 1971)
  • As Cinco Jornadas de Milão (Le cinque giornate, 1973) — Incursão histórica rara
  • Prelúdio para Matar (Profondo rosso, 1975) — Considerado um dos marcos do gênero
  • Suspiria (1977) — Primeiro da “Trilogia das Mães”
  • A Mansão do Inferno (Inferno, 1980) — Segunda parte da trilogia das mães
  • Tenebre (1982)
    Phenomena (1985)
  • Terror na Opera (1987)
  • Dois Olhos Satânicos (Two Evil Eyes, 1990) — Segmento “The Black Cat”
  • Trauma (1993)
  • O Síndrome de Stendhal (La sindrome di Stendhal, 1996)

Loading

Compartilhe nosso artigo

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *