Há imagens no cinema que atravessam o tempo. Mesmo quem nunca assistiu a um filme inteiro de Harold Lloyd reconhece aquela cena: um homem de óculos, pendurado nos ponteiros de um relógio, à beira do vazio, com a cidade pulsando lá embaixo. Aquela imagem é um símbolo visual. É o cinema mudo em seu auge, misturando riso, vertigem e humanidade.
Harold Lloyd foi um dos grandes nomes do cinema silencioso, ao lado de Charlie Chaplin e Buster Keaton, mas trilhou um caminho próprio. Seu personagem mais famoso, conhecido como “The Boy” (O Rapaz), não era um vagabundo poético, Lloyd representava o homem comum: jovem, otimista, determinado a vencer, mesmo tropeçando, e muitas vezes pendurado literalmente no limite do impossível.
De óculos redondos e chapéu-coco, esse personagem carregava algo profundamente moderno: o desejo de ascensão social, de pertencimento, de amor. Em filmes como Grandma’s Boy, Girl Shy e The Freshman, Lloyd constrói um arquétipo que personifica o Sonho Americano, mas sem glamour. O sucesso, para ele, vem com suor, risco e uma boa dose de ingenuidade.
Corpo em risco, riso em tensão
O que distingue Harold Lloyd é a maneira como ele transforma o corpo em linguagem. Sua comédia é física, acrobática, precisa e, ao mesmo tempo, angustiante. Em Safety Last! (1923), sua obra mais famosa, o riso nasce do suspense. A cada andar escalado, o público prende a respiração. Não é apenas engraçado: é vertiginoso.
A ideia do filme surgiu quando Lloyd presenciou um “homem-mosca” escalando um prédio. A cena o impactou de tal forma que ele mal conseguia olhar. Anos depois, lembraria que seu coração parecia sair pela boca. Dessa experiência nasceu o esqueleto dramático de Safety Las, um filme construído em torno de uma única sequência ousada, e tudo o que vem antes da sentido àquela escalada final.
O roteiro acompanha um jovem do interior que vai à cidade grande em busca de sucesso. Para impressionar a namorada, ele inventa uma posição social que não possui. A ilusão, aliás, é um dos grandes temas do filme, não apenas do personagem, mas do próprio cinema. Logo na primeira cena, Lloyd parece estar atrás das grades… até que a câmera se afasta e revela a verdade. O cinema, como o personagem, engana e encanta.
O relógio, o abismo e a ilusão perfeita
A famosa sequência do relógio é uma aula de construção cinematográfica. Cada obstáculo, pombos, redes, janelas, um cavalete, até o próprio relógio, funciona como uma estrofe de um poema visual, como definiu o crítico James Agee. O público da época reagia com tamanho impacto que muitos tapavam os olhos; alguns cinemas mantinham enfermeiras de prontidão.
Isso, para mim, é fascinante. Quem ama o cinema mudo, como eu, sabe como os olhos se enchem de expectativa, como nasce a curiosidade em entender de que forma cada cena foi pensada, construída e filmada. A narrativa se desenha na minha cabeça enquanto imagino cada detalhe sendo minuciosamente elaborado: o que estava no roteiro, o que foi mantido, o que se transformou no momento da gravação. Estamos falando de 1923, muito antes de eu existir, muito antes até de sonhar em estudar cinema. E, ainda assim, hoje estou aqui, revisitando e trazendo à memória grandes cineastas que abriram caminhos para que nós, agora, possamos não apenas assistir, mas aprender com eles.
Apesar do mito, Lloyd não fez todas as cenas sozinho. A produção utilizou dublês, acrobatas e diferentes prédios de Los Angeles, explorando ângulos e perspectivas para criar a ilusão de altura extrema. Ainda assim, Lloyd realizou grande parte das cenas, mesmo tendo perdido o polegar e o indicador da mão direita em um acidente anos antes, detalhe cuidadosamente escondido por uma luva especial.
O mais impressionante é que, mesmo hoje, a sequência continua absolutamente convincente. Sem efeitos digitais, sem truques modernos, apenas cinema em estado puro. O relógio não é só um objeto: é uma metáfora visual poderosa do homem comum tentando subir, escorregando, insistindo, lutando contra o tempo e o medo.
Um legado que resiste ao tempo
Apesar de um incêndio em 1943 ter destruído muitos de seus curtas iniciais, os longas-metragens de Harold Lloyd sobreviveram e continuam sendo celebrados como obras-primas da comédia silenciosa. Seu controle criativo, quase empresarial, garantiu uma filmografia coesa e tecnicamente precisa.
Harold Lloyd não buscava apenas fazer rir. Ele entendia o cinema como construção, risco e ilusão. Seu humor nasce da tensão, do perigo real, da empatia com um personagem que poderia ser qualquer um de nós. Talvez seja por isso que aquela imagem do homem pendurado no relógio nunca nos abandona. Porque, no fundo, todos nós já estivemos ali, tentando subir, com o coração na garganta, acreditando que ainda dá tempo
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