Marcelo Kricheldorf
O cinema de Yorgos Lanthimos é uma experiência de estranhamento que confronta o espectador com as entranhas das convenções sociais. Consolidado nos dias atuais como um dos nomes mais influentes da sétima arte, o diretor grego estabeleceu uma linguagem única que transita entre o rigor clínico e o delírio barroco. A obra de Lanthimos não busca o conforto; pelo contrário, utiliza a estética do absurdo para dissecar a natureza humana, a autoridade e as estruturas de poder que regem a contemporaneidade.
Diferente das distopias tecnológicas de Hollywood, a distopia em Lanthimos é comportamental. Em filmes como O Lagosta (2015), o cenário parece o mundo atual, mas as regras são distorcidas: a obrigatoriedade de se viver em casal é levada ao literalismo biológico. Essa abordagem permite uma crítica contundente à sociedade contemporânea e à sua obsessão por categorização e conformidade. O diretor sugere que vivemos em sistemas tão arbitrários quanto as regras de seus filmes, onde o livre-arbítrio é apenas uma ilusão dentro de um tabuleiro de normas sociais rígidas.
O uso do humor ácido é a principal ferramenta de desestabilização de Lanthimos. O riso que ele provoca é nervoso e tenso; a entrega de diálogos absurdos com uma neutralidade emocional absoluta. Essa técnica remove a empatia imediata e força o público a observar os personagens como espécimes em um laboratório. As relações interpessoais são retratadas como transações frias ou jogos de poder. Não há espaço para o sentimentalismo; o afeto é frequentemente substituído pela necessidade de sobrevivência ou pela manutenção de uma posição hierárquica.
A raiz de sua cinematografia reside na Greek Weird Wave* e no teatro experimental. A influência das tragédias gregas é evidente na inevitabilidade do destino e no isolamento dos personagens. Em Dente Canino (2009), Lanthimos apresenta sua crítica mais feroz à família e à autoridade. Ao mostrar pais que criam os filhos em um isolamento absoluto, inventando um novo vocabulário para eles, o diretor expõe como o controle da linguagem e da informação é a base de qualquer regime autoritário. A família, portanto, é vista como o microcosmo do Estado totalitário.
Visualmente, Lanthimos evoluiu de uma crueza quase documental para um refinamento técnico estonteante. Em obras mais recentes, como Pobres Criaturas (2023) e seus projetos de 2024-2025, o uso de lentes grande-angulares deforma o espaço, criando uma sensação de clausura e surrealismo. Sua estética bebe diretamente do cinema europeu de Stanley Kubrick e Luis Buñuel, utilizando a simetria e a luz natural para criar ambientes que são, ao mesmo tempo, belos e repulsivos. Cada enquadramento é planejado para reforçar a alienação do indivíduo perante o mundo.
A recepção crítica de sua obra é marcada por uma transição rara: de um diretor de nicho para um favorito das premiações globais, como o Oscar e o BAFTA. Atualmente, Lanthimos é visto não apenas como um provocador, mas como um mestre da forma que conseguiu levar o cinema de vanguarda para o grande público sem diluir sua essência subversiva.
O futuro do cinema de Yorgos Lanthimos aponta para uma exploração ainda mais profunda de fábulas morais modernas. À medida que a tecnologia e a inteligência artificial desafiam o que significa ser humano, o olhar clínico de Lanthimos torna-se cada vez mais essencial. Ele permanece como o cirurgião do absurdo, operando sobre uma sociedade que, embora se pretenda civilizada, continua presa a instintos primitivos e estruturas de poder arcaicas.
Informações Adicionais:
O Greek Weird Wave (Onda Estranha Grega) é um movimento cinematográfico que surgiu no final dos anos 2000, ganhando destaque internacional como uma resposta criativa à severa crise socioeconômica da Grécia. É definido por narrativas surreais e absurdistas e uma estética clínica e austera.
Principais Obras da Filmografia de Yorgos Lanthimos:
- Bugonia (2025)
- Tipos de Gentileza (Kinds of Kindness, 2024)
- Pobres Criaturas (Poor Things, 2023)
- A Favorita (The Favourite, 2018)
- O Sacrifício do Cervo Sagrado (The Killing of a Sacred Deer, 2017)
- O Lagosta (The Lobster, 2015)
- Alpes (Alps, 2011)
- Dente Canino (Dogtooth / Kynodontas, 2009)
- Kinetta (2005)
- Meu Melhor Amigo (My Best Friend / O kalyteros mou filos, 2001)
![]()


Parabéns pela matéria
Show de bola.
Gostei.
Parabéns pela análise
Parabéns pela matéria!