Marcelo Kricheldorf
A cinematografia de fluxo, um estilo notável e visível que surgiu na sétima arte contemporânea no final dos anos 1990 e início dos 2000. Visualizada e observada por críticos da influente publicação francesa Cahiers du Cinéma, caracteriza-se por uma ruptura radical com a diegese tradicional e a estrutura dramática formalista clássica. Sua principal proposta é privilegiar a criação de uma experiência sensorial, gerando novos contornos e sensações ao espectador, em vez de seguir um argumento convencional.
Essa estética se define pelo abandono da narrativa linear utilizada no cinema clássico e convencional Os filmes de fluxo frequentemente dispensam um relato claro, foco dramático ou desfecho fechado. O encadeamento de ações dá lugar a fragmentos de cotidiano e bloqueios emocionais, sem significados predeterminados.
O destaque para o sensorial é central, com a ênfase recaindo sobre a percepção e a materialidade do corpo e do cotidiano, em detrimento do discurso racional. O objetivo é gerar um sentimento, uma nova forma de ver o mundo, mais do que um sentido lógico.
A noção de tempo é reconfigurada, muitas vezes marcada por uma certa indiferença à passagem dos fatos, com planos longos, dilatação temporal e uma montagem que desafia as convenções rítmicas tradicionais. Em contrapartida à “mise en scène” clássica (encenação) no cinema de fluxo é por vezes subvertida, sugerindo um processo de desconstrução da narrativa, uma ausência de contornos rígidos. Essa estética exige por parte do público uma nova forma de ver o mundo, convidando a uma percepção mais atenta da “forma” e menos atenta ao “conteúdo”
Cineastas notáveis associados a essa estética incluem Gus Van Sant (Elefante), Hou Hsiao-Hsien (Millennium Mambo), Apichatpong Weerasethakul (Mal dos Trópicos), Claire Denis (O Intruso), Lucrecia Martel (A Mulher Sem Cabeça) e Abbas Kiarostami (Dez).
Gus Van Sant é um dos nomes mais emblemáticos, especialmente em sua trilogia de filmes experimentais que inclui Gerry (2002), Elefante (2003) e Last Days (2005). Em Gerry, a narrativa é mínima, focando na jornada física e sensorial de dois personagens perdidos no deserto, utilizando longos planos-sequência que esvaziam a ação de dramatismo em favor da experiência.
Claire Denis é aclamada por sua capacidade de criar intimidade e uma edição singular, Denis explora a materialidade dos corpos e dos espaços. Filmes como O Intruso (L’intrus, 2004) e Desejo e Obsessão (Beau Travail, 1999) utilizam uma linguagem tátil e sensorial, onde o que é sentido muitas vezes se sobrepõe ao que é dito ou explicado.
O cineasta Hou Hsiao-Hsien taiwanês é mestre em criar atmosferas melancólicas e fluidas. Millennium Mambo (2001) é frequentemente mencionado como um exemplo perfeito do cinema de fluxo, com sua fotografia estilizada e ritmo hipnótico que acompanha a vida noturna de Taipei. Outro filme que se encaixa na estética é O Voo do Balão Vermelho (Le voyage du ballon rouge, 2007).
O diretor tailandês Apichatpong Weerasethakul cria relatos oníricos e sensoriais que misturam realidade e mito, onde a temporalidade é fluida e o foco está na sensação e na natureza. Mal dos Trópicos (Tropical Malady, 2004) é um exemplo notável dessa abordagem.
A cineasta Lucrecia Martel argentina, em filmes como A Mulher Sem Cabeça (La mujer sin cabeza, 2008), utiliza o design de som e a encenação para criar uma atmosfera de estranhamento e tensão, onde a percepção sensorial do público é constantemente desafiada.
Por fim podemos citar as obras de Kiarostami que incorpora muitas das ideias associadas ao cinema de fluxo, desafiando convenções narrativas e convidando o espectador a uma experiência mais reflexiva e participativa, onde o “filme se faz” no encontro com o público.Isso fica evidente nas obras Onde É a Casa do Meu Amigo? (1987), E a Vida Continua (1992), Oliveira (1994), O Gosto de Cereja (1997), O Vento nos Levará (1999), Dez (2002), Shirin (2008)
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Ótima matéria, bem explicada. Parabéns .